A força invisível da Transição Energética: o potencial da reindustrialização verde e do Trabalho Digno no Norte e Nordeste
Conheça a história de trabalhadores da economia verde e os dados inéditos do Dossiê "Meu Trabalho é Digno" que revela como milhares de trabalhadores do Norte e Nordeste ainda lutam pela formalização

Por Giovanna Carneiro
Na roça, no rio e nas ruas, em uma escala de trabalho extensa e com poucos momentos de descanso e lazer. Pescando, vendendo frutas e verduras, catando materiais recicláveis. Há mais de vinte anos essa é a rotina de Adonias Antônio Vieira, de 58 anos. Natural da cidade de Goiana, na Zona da Mata de Pernambuco, o autônomo conta que a falta de escolaridade resultou em falta de oportunidades de emprego formal, por isso, desde cedo foi preciso aprender a “se virar para ganhar um trocadinho”.
“Eu trabalho com pesca artesanal, agricultura e reciclagem. Quando a maré é boa, a gente tem uma renda boa, mas nem sempre é assim, porque depende da época do ano. Já a reciclagem, eu trabalho porque eu gosto, porque não dá muito dinheiro não, tem que pegar muito material para ter um dinheiro bom. E, com a agricultura, a renda varia muito. Eu vendo coco verde, inhame, macaxeira, mas a renda não é fixa”, explica Adonias Vieira.

Adonias Antônio Vieira, de 58 anos, catador, pescador e agricultor. Crédito: Giovanna Carneiro.
O autônomo faz parte de uma estatística alarmante revelada na pesquisa inédita do Dossiê da campanha “Meu Trabalho é Digno”, realizada pela Palmares Lab: 73,7% dos trabalhadores inseridos em atividades ambientalmente sustentáveis no Brasil atuam na informalidade — quase o dobro da média geral do país.
A reportagem da Epicentro teve acesso exclusivo ao levantamento e conversou com especialistas e trabalhadores para entender o impacto da falta de formalização dos empregos verdes na economia do Brasil, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste.
O paradoxo verde do Norte e Nordeste: abundância de recursos versus precariedade laboral
O Brasil possui uma economia verde vibrante e ativa, mas enfrenta um grave problema de visibilidade. Catadores de materiais recicláveis, pescadores artesanais, marisqueiras, agricultores familiares e extrativistas realizam, há décadas, o trabalho de preservação e de circularidade que as políticas climáticas globais tentam desenhar. Contudo, a imensa maioria desses trabalhadores atua na informalidade, à margem dos direitos trabalhistas e do reconhecimento do Estado.
De acordo com o estudo Data Brief - Potencial da reindustrialização verde e circular para a geração de trabalho digno e transformação socioeconômica no Norte e Nordeste do Brasil, realizado pela Palmares Lab e publicado em janeiro deste ano, a taxa média de informalidade no mercado de trabalho é de 38%, mas atinge 52,2% no Nordeste. O levantamento aponta ainda que seis estados brasileiros, todos localizados no Norte e Nordeste, possuem mais trabalhadores informais do que formais: Maranhão (57%), Pará (56,5%), Piauí (52,7%), Amazonas (51,5%), Bahia (51,5%) e Ceará (51,1%).
“O que a pesquisa revela é uma contradição estruturante. O Norte e o Nordeste são os epicentros dos novos parques eólicos e solares, mas o volume de empregos verdes [postos de trabalho que contribuem, de forma direta ou indireta, para a preservação, a recuperação ou a melhoria da qualidade do meio ambiente] visibilizado estatisticamente nessas regiões é ínfimo. Isso ocorre porque a base da economia ambiental dessas regiões, que envolve catadores, marisqueiras e pescadores, opera quase inteiramente na informalidade. A informalidade aqui não é um estágio passageiro, ela atua como um mecanismo de manutenção do sistema atual. Ao manter esses trabalhadores invisíveis, o sistema extrai valor ambiental e produtivo de graça, sem o ônus de arcar com a proteção social e a seguridade desses sujeitos. É uma economia que se sustenta pela negação de direitos”, explica Fernanda Melo, mestra em Gestão de Políticas Públicas pela USP e bacharel em Relações Internacionais. Melo foi a liderança técnica na elaboração do Data Brief, que foi apresentado no Fórum Econômico Mundial.
A pesquisadora reforça ainda que a “invisibilidade burocrática” desses postos de trabalho funciona como um mecanismo de exclusão política, já que o que não é mensurado não entra no orçamento público nem na agenda de investimentos de grandes conferências climáticas. “A ausência de códigos específicos na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) para profissionais como mariscadores e catadores cria um vácuo de dados; é como se esses empregos verdes não existissem aos olhos da legislação. Como a mão de obra do Norte/Nordeste é mantida na informalidade, ela não se enquadra na definição da Organização Internacional do Trabalho, que exige que os empregos verdes sejam empregos decentes, o que pressupõe formalidade e proteção. O resultado disso é que os investimentos verdes globais e a financeirização climática migram para o Centro-Sul, onde os empregos já são formais, retroalimentando um ciclo de concentração de riqueza”, revela Melo.
Outro resultado da falta de formalização é a constante insegurança financeira a que estão submetidos os profissionais dos empregos verdes.
“Eu trabalho todo dia, de domingo a domingo, geralmente das sete da manhã às seis da noite. Sábado e domingo também, porque não tem um dinheiro certo. Se eu precisar ficar parado por doença ou qualquer outra coisa, como é que eu vou comer?”, questiona Adonias Vieira.
De acordo com os dados do Dossiê Meu Trabalho é Digno, nas atividades de pesca, a informalidade atinge índices alarmantes: chega a 90,1% no Norte e 88,2% no Nordeste. Porém, graças a uma mobilização da Colônia dos Pescadores da cidade de Goiana, Vieira passou a receber o benefício do Programa Chapéu de Palha, um auxílio financeiro do Governo de Pernambuco que apoia os trabalhadores rurais e pescadores artesanais durante os períodos de entressafra ou o defeso (paralisação temporária da pesca comercial e esportiva de determinadas espécies de peixes, crustáceos e moluscos). O valor do benefício é de R$ 373,08, e cada beneficiário recebe o montante fracionado em cinco parcelas, pagas ao longo de quatro meses.
“Eu dou graças a Deus que eu consegui fazer minha carteirinha de pescador e consegui os benefícios do governo, já me ajuda bastante, pelo menos a ter a certeza de poder fazer uma feira para casa”, conta o pescador, enquanto mostra a sua carteirinha, orgulhoso.

O autônomo Adonias Antônio Vieira exibe sua carteira de pescador artesanal. Crédito: Giovanna Carneiro.
O estudo estatístico municipal, realizado pelo Data Brief, comprova que a maior presença de empregos verdes formais está diretamente associada ao progresso socioeconômico. De acordo com a pesquisa, um aumento de 10% na taxa de empregos verdes por 100 mil habitantes está associado a um aumento de 1,76% no PIB municipal per capita; a uma melhoria de 2,57% no Índice de Progresso Social (IPS); e a reduções na vulnerabilidade climática local.
Além disso, uma simulação estatística realizada na pesquisa mostra que expandir a densidade de empregos verdes no Norte e no Nordeste em 10% está associada a um crescimento de 0,35% no PIB total do Brasil, gerando benefícios que se propagam por todo o país.
“O debate dominante é enviesado pelo lado do empregador, focando apenas em encargos e conformidade. O que o Data Brief demonstra é que a formalização gera retornos fiscais, produtivos e sociais que cobrem o investimento inicial. Quando um catador ou marisqueira é formalizado, ele ganha renda estável, cobertura previdenciária e, consequentemente, acesso ao crédito. Isso transforma o trabalhador em um agente econômico ativo na comunidade local: ele consome de forma planejada, paga tributos e acessa serviços. A formalização cria um círculo virtuoso de consumo e arrecadação que retroalimenta o PIB regional”, explica Fernanda Melo.
"A integração desses trabalhadores ao mercado formal não é apenas uma questão de justiça social, mas também de eficiência econômica. Nossos dados mostram que a formalização resulta em aumento direto do PIB local e na redução do Índice de Vulnerabilidade Social (IVS), fortalecendo a economia de baixo para cima”, defende a pesquisadora.
Gênero, trabalho de cuidado e a espinha dorsal da Adaptação Climática
Diferentemente do pescador Adonias Vieira, que conseguiu acesso aos benefícios do governo estadual por meio da associação à colônia de pescadores, a catadora Josse da Silva Nascimento, de 57 anos, sofre com a falta de articulação ligada à sua categoria. Também moradora da cidade de Goiana, Pernambuco, ela conta que sente falta de uma organização coletiva que represente sua profissão e seja capaz de lhe garantir direitos trabalhistas.
“Eu comecei a catar material reciclável quando me separei do meu marido. Eu não tinha estudado, só fiz até a quarta série, não conseguia arrumar emprego, então comecei a vender bebida nas festas e catar as latinhas para criar minhas filhas, e isso já tem mais de 20 anos. Agora eu não tenho mais condições de vender bebida porque já estou velha e com algumas doenças e não consigo mais virar a noite nas festas como antigamente, por isso hoje em dia eu só cato as latinhas mesmo. Muita gente já sabe que esse é meu trabalho e traz aqui na minha casa para me ajudar. E assim vou levando enquanto puder”, conta a catadora, que mora com a filha e a neta.

A catadora Josse da Silva Nascimento, de 57 anos. Crédito: Giovanna Carneiro
Josse revela que está há mais de cinco anos lutando por um auxílio-doença, mas nunca conseguiu e está “perdendo as esperanças”. Atualmente, ela recebe o Bolsa Família e arrecada entre R$ 200 e R$ 350 por mês com a reciclagem. “Quando a festa é boa, eu faço uns duzentos reais de uma vez, mas nem sempre é assim. Antigamente eu fazia faxina também para complementar a renda, mas agora já não consigo mais por conta da saúde”, diz Josse.
De acordo com os dados exclusivos do Dossiê Meu Trabalho é Digno, as mulheres representam apenas 23,1% dos trabalhadores verdes informais no Brasil (cerca de 217 mil pessoas) e 26,1% no Nordeste (aproximadamente 88 mil). No recorte estrito do emprego verde informal (que reúne cerca de 940 mil pessoas no Brasil e 338 mil no Nordeste), 76,9% são homens, com idade média de 42,7 anos. Já os dados do Data Brief mostram que as mulheres têm 65% menos chances de ingressar em empregos verdes do que os homens, mesmo após o controle de variáveis como escolaridade, renda e condições locais.
“É impossível falar em transição justa sem reconhecer que o trabalho de cuidado não remunerado é a espinha dorsal da resiliência comunitária frente ao colapso ambiental. As mulheres não são apenas vítimas das crises climáticas; são as principais gestoras da adaptação nos territórios. As mulheres estão super-representadas na informalidade de base e quase totalmente ausentes dos cargos de gestão, engenharia e finanças climáticas, que hoje são dominados por homens do Centro-Sul. Em eventos extremos, como enchentes, são as mulheres que lideram a reconstrução doméstica e comunitária. No entanto, elas são excluídas de instrumentos de proteção social. Um exemplo gritante é o seguro-defeso, cuja cobertura é majoritariamente masculina, ignorando o papel vital das mulheres na pesca artesanal”, revela Fernanda Melo.

A pesca artesanal é um emprego verde e uma das principais fontes de renda para milhares de famílias em comunidades ribeirinhas e tradicionais do Brasil. Crédito: Fernando Frazão/Agência Brasil
O seguro-defeso é um benefício financeiro pago pelo Governo Federal aos pescadores artesanais profissionais que precisam parar de trabalhar durante o período de defeso, época em que a pesca é proibida ou restrita para garantir a reprodução e a preservação de espécies aquáticas.
“Meu Trabalho é Digno”: Quem constrói o verde no Brasil não pode continuar invisível
A partir do entendimento dos dados apresentados no Data Brief realizado pelo Núcleo de Pesquisas da Palmares Lab, nasceu a campanha Meu Trabalho é Digno, com o objetivo de mobilizar a sociedade civil a fim de promover um avanço no debate nacional sobre a formalização de empregos verdes.
“Um dado que me chamou muito a atenção foi a correlação positiva entre o aumento da densidade de empregos verdes nos municípios brasileiros e o crescimento do PIB per capita, além da melhoria no Índice de Progresso Social (IPS) e da redução da vulnerabilidade climática. Percebi que não há como falar de políticas públicas eficazes sem discutir a economia, o orçamento e o impacto social. Diante disso, construímos uma teoria da mudança com foco no avanço nacional de políticas de formalização de empregos verdes. O ponto central é que esses empregos já existem no Brasil, mas carecem inteiramente de leis, normativas, critérios e de todo o conjunto regulatório que outras áreas já possuem”, conta Matheus Rodrigues, coordenador da campanha e Analista-Executivo da Palmares Lab.
A campanha deu vida ao dossiê que será lançado em breve pela Palmares Lab, com a continuidade e a ampliação da pesquisa do Data Brief. O Dossiê da campanha Meu Trabalho é Digno aponta que o futuro do desenvolvimento nacional exige o acionamento simultâneo de duas alavancas: o investimento produtivo na infraestrutura das cadeias verdes (como saneamento, energia e reciclagem) e a formalização direta do trabalhador.

A campanha Meu Trabalho é Digno foi lançada em junho de 2026. Crédito: Reprodução / Instagram
“O Mapa do Caminho foi promulgado pelo governo federal durante a COP 30 para servir de guia nacional para atingirmos metas climáticas, melhorar a qualidade de vida e frear a crise ambiental antes que atinjamos o chamado "ponto de não retorno". Esse ponto de não retorno já é uma realidade visível no processo de desertificação do Nordeste e no fim do Pantanal. No entanto, esse documento fundamental está atualmente arquivado e travado no Senado Federal. Nosso objetivo inicial e imediato como movimento é conseguir destravar o Mapa do Caminho no Senado e incluir nele, de forma explícita, a formalização dos empregos verdes como principal ferramenta de ação. A política pública não pode ser desenhada sem aqueles que de fato preservam as florestas, reciclam resíduos e produzem alimentos limpos, mantendo-os à margem da justiça social, econômica e territorial”, explica Rodrigues.
Os dados do dossiê demonstram que investir sem formalizar moderniza as cadeias, mas reproduz a exclusão social. Por outro lado, formalizar sem investir apenas garante direitos sem alterar a estrutura produtiva marginal desses territórios. Integrar a imensa e valiosa força de trabalho informal do Norte e do Nordeste do país às políticas de reindustrialização é o único caminho viável para que o Brasil lidere uma transição ecológica verdadeiramente justa.
“Precisamos ter muita atenção sobre como o capitalismo se apropria de termos como ‘desenvolvimento sustentável’ para mercantilizar processos, como no mercado de carbono, ou mascarar práticas nocivas. No Pará, por exemplo, o agronegócio e as mineradoras frequentemente usam o discurso da ‘economia verde’ para justificar suas atividades, o que, por vezes, encobre processos de grilagem de terras. Para nós, a verdadeira economia verde é aquela feita por quem já protege o meio ambiente há gerações, muito antes de nós existirmos [...] Historicamente, no Brasil, o debate sobre informalidade foca em tirar a pessoa de sua atividade atual para inseri-la em uma vaga tradicional de emprego com carteira assinada. O que nós pautamos é inovador: queremos formalizar a atividade que o trabalhador já realiza em seu território. Assim como médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem e jornalistas têm regulamentações e normativas específicas que protegem suas profissões e garantem seus direitos, associações de reciclagem e pescadores artesanais também precisam desse aparato normativo estruturado que defenda sua atuação”, defende o coordenador da campanha.
O Dossiê simulou o impacto de uma política pública realista, capaz de formalizar 30% dos trabalhadores verdes informais do Norte e do Nordeste. Sob a proxy do trabalho verde decente, isso significaria: a criação de 171,2 mil vínculos formalizados; a injeção de R$ 2,32 bilhões de nova renda anual diretamente no bolso dos trabalhadores; a sustentação de 37,2 mil empregos induzidos em toda a economia brasileira pelo consumo dessas famílias; e o acréscimo de R$ 2,57 bilhões de Valor Adicionado Bruto (VAB) no Brasil.
Ainda de acordo com as simulações da pesquisa, cada R$ 1 de contribuição patronal simulada sobre os novos vínculos formais ativa cerca de R$ 2,70 de VAB nacional. O retorno é expressivo em âmbito regional, alcançando R$ 2,71 no Nordeste e R$ 2,55 no Norte, liderado por estados como Maranhão e Piauí. Como a renda do trabalhador formalizado se converte rapidamente em consumo local, formalizar o trabalho verde é a política de desenvolvimento regional de melhor pontaria territorial disponível no país.
Questionados sobre como ter uma renda fixa impactaria na qualidade de suas vidas, Josse Nascimento e Adonias Vieira têm uma mesma opinião: “seria maravilhoso”; “gratificante”, “uma benção”. Ter tempo de descanso e lazer com os familiares, poder pagar uma consulta médica ou um exame de urgência, realizar tratamentos de saúde, comprar coisas para a casa e poder fazer uma feira mensal de alimentos sem preocupação, estão entre os benefícios citados pelos autônomos.
Josse termina com um apelo: “Se pudessem formalizar a gente muito grata eu seria, afinal, a gente trabalha como qualquer outra pessoa ou talvez até mais”.