Conflitos no campo voltam a crescer no Brasil no 1º semestre de 2026; Maranhão lidera ocorrências e Amazonas registra explosão de casos
Levantamento parcial da Comissão Pastoral da Terra (CPT) aponta 841 ocorrências no período. Destaques incluem escalada de conflitos no Amazonas, disparada nas disputas por água no Pará e contaminação por garimpo em terras indígenas

Imagem: Reprodução / MST
Após um período de retração, a violência e as disputas no meio rural brasileiro voltaram a registrar alta. Dados parciais divulgados pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) revelam que o país contabilizou 841 conflitos no campo no primeiro semestre de 2026. O número representa uma retomada do crescimento após queda no ano anterior e distribui-se entre 711 disputas por terra, 100 conflitos por água e 30 ocorrências de trabalho escravo rural.
O estado do Maranhão segue na liderança nacional de conflitos no campo, somando 156 registros nos primeiros seis meses do ano — mantendo uma tendência observada nos últimos anos. Na sequência dos estados com maior volume de disputas figuram o Pará (90), a Bahia (85), Rondônia (63) e o Amazonas (63).
No recorte específico de conflitos pela posse e ocupação da terra, houve avanço de 584 registros no primeiro semestre de 2025 para 663 em 2026. Maranhão (153), Bahia (76), Pará (68) e Rondônia (54) encabeçam as ocorrências desse eixo. O grande destaque do período, contudo, foi o Amazonas, que teve um salto de 140% nos conflitos por terra em relação ao mesmo período de 2025, atingindo 52 registros.

Crédito: Divulgação / CPT
A expansão do agronegócio tem impulsionado modalidades específicas de violência, com alta acentuada na contaminação por agrotóxicos, além de invasões territoriais, desmatamento ilegal e ameaças de despejo, com forte incidência sobre as comunidades maranhenses. Em contrapartida, as ações de resistência comunitária (como acampamentos e ocupações) recuaram de 66 para 48 registros, acompanhando a tendência histórica da última década.

Crédito: Divulgação / CPT
Disputas por água dobram e atingem 20 estados
Os conflitos pelo acesso e controle da água mais que dobraram no comparativo semestral, subindo de 47 para 100 registros em 20 estados. O Pará liderou o ranking com 16 casos, seguido por Minas Gerais (11), Amazonas (10) e Mato Grosso (10).
Em solo paraense, a conflagração é alimentada pela resistência dos povos indígenas e ribeirinhos contra a privatização de rios proposta pelo governo federal, a pressão de mineradoras e o avanço do garimpo. A mobilização indígena contra a entrega dos recursos hídricos ao setor privado resultou na revogação do Decreto nº 12.600/2025 em fevereiro de 2026.
Contaminação lidera violações físicas; mortes caem mas violência aumenta
No eixo de violência contra a pessoa, o país registrou 6 assassinatos decorrentes de conflitos agrários no semestre — redução em relação aos 27 mortos contabilizados em igual período de 2025. Entre as vítimas fatais estão três posseiros mortos em um massacre no município de Lábrea (AM), dois indígenas (em Roraima e no Mato Grosso do Sul) e um trabalhador rural sem-terra, com idades variando entre 14 e 45 anos.
Apesar do recuo nos homicídios, o total de casos de violência (588) e de vítimas (497) cresceu no período. A forma de violência com maior volume de registros foi a contaminação por minérios (195 casos), seguida por contaminação por agrotóxicos (132), criminalização (51) e ferimentos (42).
Todas as 195 ocorrências de contaminação mineral decorrem de um único caso emblemático em Jacareacanga (PA). A violação atinge a Terra Indígena Munduruku, degradada pela extração ilegal de ouro na bacia do rio Tapajós. Os povos indígenas figuram como o segmento mais atingido pela violência no campo, seguidos por trabalhadores sem-terra, posseiros, seringueiros e quilombolas.
Trabalho escravo em SP e formas de resistência
O levantamento mapeou 30 ocorrências de trabalho escravo rural com 355 trabalhadores resgatados. A CPT pondera que a queda pontual nos indicadores em relação ao ano anterior pode estar associada a atrasos no repasse de dados pela Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT). O estado de São Paulo concentrou o maior número de resgates (148 pessoas) e de casos (5), sendo três deles vinculados às etapas de plantio e corte de cana-de-açúcar.

Crédito: Divulgação / CPT
Em reação às violações, os movimentos do campo intensificaram as manifestações de luta, que subiram de 253 para 284 ações. As mobilizações envolveram marchas, atos públicos, romarias, bloqueios de rodovias e ocupações de órgãos públicos, tendo como pautas centrais a demarcação de terras indígenas, o combate aos agrotóxicos e à mineração, e a defesa da gestão pública das águas.