Conheça a campanha que busca dar voz a jovens afetados pelo crime da Braskem em Maceió

Pesquisa cidadã #NinguémMePerguntou pretende reunir relatos e dados produzidos por jovens dos territórios atingidos pelo afundamento do solo; arrecadação financia bolsas, trabalho de campo e estrutura tecnológica

Imagem: Mykesio Max / Comunicação MST

Seis anos após o início do processo de afundamento do solo provocado pela exploração de sal-gema da Braskem, os impactos sobre os moradores de Maceió continuam atravessando territórios, relações comunitárias e projetos de vida. Para uma geração de jovens que tinha entre 16 e 30 anos quando os bairros foram esvaziados, as consequências do desastre-crime também significaram o fechamento de escolas, o rompimento de redes de convivência e mudanças abruptas em suas trajetórias.

É a partir dessa perspectiva que o LabHacker – AL e o Observatório do Caso Braskem lançaram a campanha de arrecadação para viabilizar a pesquisa cidadã #NinguémMePerguntou. A iniciativa busca colocar os próprios jovens atingidos no centro da produção de dados e das narrativas sobre os impactos socioambientais provocados pelo desastre.

Clique aqui para conhecer a campanha e contribuir: Benfeitoria — campanha #NinguémMePerguntou, do LabHacker – AL.

Segundo a organização, apesar da dimensão do caso, as experiências subjetivas e as perdas materiais vividas por essa parcela da população ainda são pouco consideradas nas narrativas oficiais e corporativas. A proposta é justamente investigar o que mudou na vida desses jovens e quais marcas o deslocamento e o desaparecimento de territórios deixaram em suas trajetórias.

Jovens como pesquisadores de seus próprios territórios

A pesquisa será desenvolvida a partir da metodologia da Geração Cidadã de Dados (GCD), que combina ativismo, transparência e tecnologia social para possibilitar que comunidades produzam, organizem e analisem informações sobre seus próprios territórios.

Nesse processo, jovens de Maceió atuarão como pesquisadores e Embaixadores em suas comunidades. A intenção é produzir evidências a partir das experiências, percepções e trajetórias da própria juventude atingida, ampliando a compreensão sobre os efeitos do desastre para além dos números oficiais.

Para o LabHacker, o acesso e a produção independente de dados são parte fundamental da busca por reparação e justiça socioambiental. A organização defende que a transparência não deve ser tratada apenas como uma questão técnica, mas como um direito da população atingida.

A arrecadação será utilizada para garantir a participação dos jovens na pesquisa e a estrutura necessária para o trabalho de campo. Entre os custos previstos estão bolsas e remuneração para os Jovens Embaixadores de Maceió, logística e deslocamento das equipes pelas áreas afetadas, ferramentas tecnológicas para coleta e proteção dos dados, além do acompanhamento de especialistas em pesquisa social e análise de dados.

Os recursos também contribuirão para a manutenção do Observatório do Caso Braskem, plataforma independente criada para documentar e monitorar os impactos do desastre-crime.

Mais de seis anos de monitoramento independente

O LabHacker – AL atua há mais de seis anos na documentação do processo de esvaziamento dos bairros afetados em Maceió. A organização também tem levado denúncias relacionadas ao caso a diferentes instâncias, incluindo a CPI da Braskem no Senado Federal e o Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU), em Genebra.

A campanha é conduzida por uma equipe formada por diretoras e pesquisadoras de campo. Evelyn Gomes, diretora executiva do LabHacker, é pesquisadora e ativista alagoana e acompanha o caso desde a perspectiva dos direitos das vítimas. Natalia Barbosa, diretora financeira em transição, atua na gestão dos recursos e na sustentabilidade das ações de campo. Já Sereia Climática, diretora em transição e facilitadora do Programa de Embaixadores, acompanha os jovens pesquisadores nos aspectos metodológicos, pedagógicos e humanos da pesquisa.

Por que perguntar à juventude?

O nome da campanha, #NinguémMePerguntou, sintetiza uma das principais questões colocadas pelo projeto: quem teve sua vida transformada pelo desastre também precisa participar da construção das evidências sobre seus impactos.

Ao priorizar os relatos e as experiências dos jovens, a pesquisa pretende revelar dimensões do desastre que não aparecem necessariamente em estatísticas sobre imóveis desocupados, pessoas deslocadas ou áreas afetadas. São mudanças nas relações de vizinhança, nos espaços de educação e convivência, nos projetos de futuro e no sentimento de pertencimento aos territórios.

Para o LabHacker, ouvir essa geração também significa discutir o futuro de Maceió a partir daqueles que tiveram suas trajetórias atravessadas pelo desastre. A organização considera que a experiência da cidade ultrapassa as fronteiras locais e pode servir de alerta sobre os efeitos da exploração predatória dos territórios, da crise ambiental e da falta de mecanismos capazes de garantir transparência e responsabilização.

A campanha de arrecadação está disponível na plataforma Benfeitoria. Os recursos serão destinados diretamente à execução da pesquisa #NinguémMePerguntou e à continuidade do trabalho independente de documentação e monitoramento realizado pelo Observatório do Caso Braskem.

Contato: lab@labhacker.org.br
Site: labhacker.org.br
Instagram: @labhacker e @observatoriocasobraskem