El Niño deve custar US$ 173 milhões às províncias e países prioritários, diz UNICEF; comunidades quilombolas podem sofrer impactos
Diante das mais de 7,6 mil comunidades quilombolas catalogadas no país, segundo o IBGE, a Presidente do Instituto Reinventando Futuros, Liu Berman, destaca que saberes ligados ao artesanato, à cerâmica, à história, ao turismo e aos conhecimentos locais, podem ser perdidos devido aos impactos socioeconômicos provocados pelo El Niño.

Imagem: Divulgação
Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia de Moçambique (INAM), o El Niño em curso poderá tornar-se num dos mais severos registados desde 1950. A comunidade global prevê que além dos efeitos climáticos, o aquecimento das águas do Pacífico pode afetar indicadores sociais das comunidades, da saúde à educação.
Em resposta ao alerta internacional, o relatório da UNICEF “Protecting children from El Niño 2026: readiness & early action across Eastern & Southern Africa”, divulgou a estimativa de financiamento relacionada ao impacto do El Niño 26: até o momento, US$ 173 milhões são avaliados para conter o impacto em províncias e países.
Além do Brasil, países como Moçambique trazem estimativas preocupantes para as novas gerações. O fenômeno climático pode desencadear danos na infraestrutura, desnutrição, doenças, escassez de água e deslocação, além de colocar em risco a educação de 1,5 milhão de alunos, segundo o Ministério da Educação e Cultura (MEC).
Diante desse cenário, comunidades quilombolas, ribeirinhas, povos indígenas e demais povos “invisibilizados”, do Norte do Amazonas ao Sul do Brasil, são alvos de preocupação, segundo ambientalistas. De acordo com Liu Berman, Presidente do Instituto Reinventando Futuros e especialista em territórios criativos, o El Niño é um agravante para as comunidades afastadas do centro e das zonas rurais.
“Diante de um fenômeno climático dessa dimensão, a resposta não pode se limitar a mapear carências; precisamos olhar primeiro para as vocações e os ativos que cada comunidade já possui. Em vez de tratar a emergência e o desenvolvimento de forma isolada, devemos integrar agendas que na prática já utilizam as mesmas pessoas e recursos, como a economia solidária, a criativa, o turismo e o desenvolvimento local, construindo estratégias de resiliência verdadeiramente conectadas às capacidades que esses territórios já têm para se proteger e prosperar. A ausência de políticas voltadas para esses territórios representa uma perda inestimável para a construção social, política e educacional do Brasil que conhecemos hoje”, afirma Berman.
Em meio ao Super El Niño, que já trouxe fortes chuvas a São Paulo e Paraná, ou a seca em Roraima, Liu destaca a importância de colocar as comunidades afastadas no centro das discussões. Segundo a especialista, saberes ligados ao artesanato, à cerâmica, à história, ao turismo e aos conhecimentos locais, podem ser perdidos se não olharmos com atenção para o impacto climático e socioeconômico provocados pelo El Niño.
“Quando esses saberes e tradições são ameaçados, perde-se a própria capacidade de sustentação da comunidade. Na prática, o que vivenciamos na rica tradição do artesanato e da cerâmica no Quilombo do Muquém, em Alagoas, mostra que são pessoas e recursos que ajudam a manter a cultura e a economia locais vivas. É justamente o fortalecimento dessas vocações e conhecimentos ancestrais que cria a base e a resiliência necessárias para que essas populações enfrentem os impactos do clima e reconstruam o seu futuro com autonomia. No entanto, é preciso trazer agora políticas voltadas a essas comunidades, para que os efeitos do El Niño na saúde, educação e demais indicadores sejam amenizados”, destaca Liu.
Apesar das mais de 7,6 mil comunidades quilombolas catalogadas, segundo o IBGE no Censo 2022, Liu explica que ainda falta direcionar esforços para as comunidades diante da aproximação do El Niño. Após visitar o Quilombo do Muquém, em União dos Palmares, a especialista reforça ainda mais o pensamento de que o território é parte da construção da solução – e não um problema. Em vez de métodos prontos, a idealizadora dos Fóruns Regionais de Economia Circular lembra que inovação é construída a partir dos símbolos e histórias dessas localidades.
“Eu costumo dizer que o território é parte da construção da solução. Para amenizar a passagem do El Niño e sairmos fortalecidos desse fenômeno climático, sobretudo em comunidades, na maioria das vezes, invisibilizadas, é reconhecer o que já existe e conectar o que está disperso. Através do desenvolvimento territorial, podemos criar condições para que o território seja protagonista do próprio futuro. Na prática, isso significa transformar a rica vocação dessas comunidades em escudos contra a crise. Ou seja, investir em uma cooperativa de cerâmica, no manejo sustentável da pesca ribeirinha ou em rotas de ecoturismo não é apenas preservar a cultura: é dar autonomia financeira e infraestrutura para que esses povos enfrentem emergências climáticas sem depender exclusivamente de socorro tardio”, conclui Liu.