EUA citam desmatamento para justificar tarifa contra o Brasil enquanto desmontam a própria política ambiental
Relatório do governo Trump propõe taxa de 25% sobre produtos brasileiros e lista o desmatamento ilegal entre as razões. O argumento, porém, parte de um governo que saiu do Acordo de Paris e promoveu a maior desregulamentação climática da história dos EUA.

O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) divulgou, em 1º de junho de 2026, o relatório final de uma investigação que recomenda a aplicação de uma tarifa de 25% sobre as importações de produtos brasileiros. Aberta em julho de 2025 com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 — dispositivo que permite a Washington punir unilateralmente práticas comerciais que considere desleais, sem passar pela Organização Mundial do Comércio (OMC) —, a investigação concluiu que políticas brasileiras seriam "irrazoáveis" e estariam onerando ou restringindo o comércio norte-americano, segundo a Agência Brasil.
Entre os seis eixos que sustentam a proposta — que incluem o sistema de pagamentos Pix, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, combate à corrupção e acesso ao mercado de etanol —, um chama atenção pela distância entre o que o documento cobra e a trajetória recente do próprio governo que o assina: o desmatamento ilegal.
O que diz o relatório
Na justificativa ambiental, o USTR reconhece que o Brasil dispõe de legislação para combater o desmatamento, mas alega que o país "historicamente não tem conseguido aplicá-la de forma eficaz", de modo que "o desmatamento ilegal persiste", conforme reproduzido pela Exame. O órgão classifica essa e as demais práticas como passíveis de ação sob a Seção 301.
O prazo legal para a eventual adoção da tarifa é 15 de julho de 2026. Antes disso, o governo norte-americano abriu um período de consulta pública: manifestações por escrito podem ser enviadas até 1º de julho, e uma audiência pública está marcada para 6 de julho, segundo a Agência Brasil.
A contradição central
O argumento ambiental contrasta com a política que a administração de Donald Trump vem adotando desde o início de 2025. Em 20 de janeiro daquele ano, o governo ordenou a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris e, na sequência, a retirada de painéis científicos da ONU, incluindo o IPCC (clima) e a IPBES (biodiversidade), conforme registrou o Instituto Humanitas Unisinos (IHU).
Em 29 de julho de 2025, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) propôs revogar o chamado endangerment finding, a declaração de 2009 que reconhece os gases de efeito estufa como ameaça à saúde pública e que serve de base legal para a regulação de emissões. O próprio administrador da agência descreveu a medida como "a maior ação de desregulamentação da história dos EUA", de acordo com reportagens reproduzidas pelo portal Sustentix e pelo IHU. Com a mudança, caíram automaticamente padrões federais de eficiência de combustível e estímulos a veículos elétricos.
O governo também retirou os EUA da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima e de dezenas de outras organizações internacionais, conforme o IHU.
Há ainda uma aparente incoerência interna na própria medida. Embora cite o desmatamento como justificativa, a proposta do USTR isenta da tarifa de 25% itens como carne bovina, café, frutas, suco de laranja e metais de terras raras, segundo a Agência Brasil e a Gazeta do Povo.
A carne bovina é, entre as commodities brasileiras, uma das mais associadas à pressão sobre a Amazônia e o Cerrado. A exclusão sugere que o critério das isenções é econômico — evitar repasses de preço ao consumidor norte-americano, como ocorreu na rodada tarifária de 2025 — e não ambiental.
Histórico político
A medida não surge em um vácuo. Em 2025, o governo Trump chegou a impor uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, associada pela Casa Branca, à época, ao processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, conforme noticiou a Trading Economics. Boa parte daquela sobretaxa acabou suspensa em razão da inflação de alimentos nos EUA.
Diante da nova proposta, integrantes do governo brasileiro a classificaram como "ideológica" e "inconsistente", segundo a imprensa nacional, e a orientação do Palácio do Planalto é buscar o diálogo com Washington antes do prazo de julho.
Para organizações que atuam na defesa da Amazônia e no jornalismo ambiental, o episódio coloca uma questão de fundo: o combate ao desmatamento ilegal é uma pauta legítima e urgente — mas que se sustenta como compromisso brasileiro, independentemente de pressões externas. Quando esse tema é mobilizado por um governo que abandonou os principais acordos climáticos do planeta, ele tende a funcionar menos como preocupação ambiental e mais como instrumento de uma disputa comercial e política.
A janela de consulta pública aberta pelo USTR, até 1º de julho, é o espaço em que governos, empresas e sociedade civil podem apresentar contestações formais antes da decisão final.
Imagem: WIN MCNAMEE / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP
Fontes consultadas:
Agência Brasil — Governo dos EUA propõe nova tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. https://agenciabrasil.ebc.com.br/internacional/noticia/2026-06/governo-dos-eua-propoe-nova-tarifa-sobre-produtos-brasileiros
Exame — Seção 301: EUA anunciam decisão e Brasil poderá ter tarifa de 25%. https://exame.com/mundo/secao-301-eua-anunciam-decisao-e-dizem-que-brasil-age-de-forma-desleal-no-comercio/
Gazeta do Povo — Órgão do governo Trump sugere tarifaço de 25% sobre produtos do Brasil. https://www.gazetadopovo.com.br/mundo/orgao-governo-trump-sugere-tarifaco-sobre-produtos-brasil/
Sustentix — A maior desregulamentação climática da história dos EUA. https://sustentix.sapo.pt/a-maior-desregulamentacao-climatica-da-historia-dos-eua-trump-quer-revogar-limites-as-emissoes/
Instituto Humanitas Unisinos (IHU) — Trump desfere golpe sem precedentes na política climática dos EUA. https://www.ihu.unisinos.br/662385-trump-desfere-golpe-sem-precedentes-na-politica-climatica-dos-estados-unidos-ao-colocar-fim-aos-limites-de-emissoes
Público — Trump prepara-se para revogar declaração que fundamenta regras ambientais nos EUA. https://www.publico.pt/2026/02/10/azul/noticia/trump-preparase-revogar-declaracao-fundamenta-regras-ambientais-eua-2164284
Trading Economics — Trump adia tarifas Brasil, poupa exportações chave. https://pt.tradingeconomics.com/brazil/balance-of-trade/news/473872