Lançamento das Diretrizes para a Filantropia Climática em Castanhal com PIPA e Coletivo Miri Propõe Novo Caminho para o Financiamento Climático no Brasil
14 de nov. de 2025
No dia 12 de novembro, a Palmares Lab esteve presente no lançamento das Diretrizes para a Filantropia Climática, realizado na Escola de Artes de Castanhal (PA). A iniciativa, conduzida pela PIPA e pelo Coletivo Miri, marcou um passo importante na construção de uma nova visão sobre o financiamento climático no Brasil — uma visão que parte do território, da experiência de quem enfrenta os impactos da crise climática todos os dias e constrói soluções reais, mesmo sem o apoio necessário.

No dia 12 de novembro, a Palmares Lab esteve presente no lançamento das Diretrizes para a Filantropia Climática, realizado na Escola de Artes de Castanhal (PA). A iniciativa, conduzida pela PIPA e pelo Coletivo Miri, marcou um passo importante na construção de uma nova visão sobre o financiamento climático no Brasil — uma visão que parte do território, da experiência de quem enfrenta os impactos da crise climática todos os dias e constrói soluções reais, mesmo sem o apoio necessário.
Durante o lançamento, as organizações de base presentes contribuíram com reflexões sobre a necessidade de descentralizar a filantropia climática, destacando que esse campo precisa oferecer financiamentos mais flexíveis e de longo prazo, que respeitem os tempos e as dinâmicas dos territórios. Enfatizou-se a urgência de superar a lógica concentradora de recursos, ainda muito restrita a grandes organizações do eixo Sul-Sudeste, e de construir modelos de apoio que reconheçam a potência das iniciativas periféricas, indígenas, quilombolas e ribeirinhas que já produzem soluções concretas de adaptação e mitigação climática.
As diretrizes apresentadas nasceram de uma consulta pública nacional sobre financiamento climático nas periferias, que reuniu dados e percepções de entrevistas com 113 organizações de todo o país e atividades qualitativas com 20 coletivos do Recife (PE). O diagnóstico revelou o tamanho do abismo entre quem faz e quem recebe recursos: 82,3% das organizações periféricas afirmam realizar ações ligadas à agenda climática, mas apenas 15,9% conseguiram acessar recursos específicos para essa pauta. Em outras palavras, respostas potentes à emergência climática estão sendo sustentadas por quem menos tem acesso ao financiamento filantrópico.
Uma das pesquisadoras da PIPA destacou uma verdade que ecoou em todo o auditório:
“As periferias há muito tempo sustentam respostas locais cotidianas — o que falta é um financiamento à altura dessas práticas.”
A pesquisa também mapeou quem são e onde estão essas organizações. São, em sua maioria, grupos liderados por mulheres, jovens, população negra, povos indígenas, pessoas LGBTQIAPN+ e pessoas com deficiência, atuantes tanto em periferias urbanas quanto em comunidades rurais. Esses coletivos estão à frente de iniciativas de restauração ambiental, agroecologia, reciclagem, defesa de territórios, justiça hídrica e adaptação climática. No entanto, seguem invisibilizados pelas estruturas tradicionais de financiamento, que ainda não reconhecem plenamente o valor do conhecimento popular e comunitário.
Os números reforçam a urgência de mudança: as regiões Norte (39,8%), Nordeste (36,3%) e Sudeste (36,3%) concentram as organizações periféricas mais ativas na agenda climática — com destaque para Pará (30,1%), Rio de Janeiro (21,2%) e Pernambuco (15,9%). Ainda assim, a maior parte dos recursos filantrópicos continua inacessível a essas iniciativas.
As diretrizes lançadas em Castanhal trazem uma provocação essencial:
“As periferias de todos os biomas brasileiros já estão produzindo respostas às mudanças climáticas, mas onde estão os recursos da filantropia?”
No caso do bioma amazônico, as organizações convivem diariamente com inundações, secas prolongadas e perda de biodiversidade, mas também têm sido protagonistas em práticas de adaptação comunitária, educação ambiental e proteção dos bens comuns. Essas experiências demonstram que as soluções já existem — o que falta é que o investimento chegue de forma justa, contínua e descentralizada.
O lançamento reforçou um consenso entre as organizações presentes: a filantropia precisa se adaptar às realidades dos territórios. Isso significa flexibilizar editais, reduzir barreiras burocráticas, investir no fortalecimento institucional e confiar nas lideranças locais. Mais do que transferir recursos, trata-se de redistribuir poder e reconhecer que a transformação climática começa nas margens, não no centro.
As Diretrizes para a Filantropia Climática, elaboradas pela PIPA e pelo Coletivo Miri, se afirmam como um chamado político e ético. Se as periferias e os povos tradicionais já estão agindo, a filantropia precisa agir junto — com escuta, flexibilidade e compromisso de longo prazo.
Em um momento em que a Amazônia está sediando a COP30, o recado vindo de Castanhal é claro e direto:
não há justiça climática sem justiça no financiamento.
O dinheiro precisa chegar a quem já está sustentando o clima todos os dias.