Menos de um ano após a COP30, Palmares HUB promove trilha de inovação em moda e clima em Belém
Workshop Moda & Clima, primeira ação territorial do Hub, chega à segunda etapa com oficina de reaproveitamento na Casa Dourada, em parceria com o Instituto Psica e o Ateliê Cabrochas; Palmares Lab já se prepara para a COP31, marcada para novembro em Antália, na Turquia

Imagem: Tabita Aynoã
O Workshop Moda & Clima, edição piloto do Palmares HUB que reúne dez negócios de moda de Belém, chega à sua segunda etapa: uma oficina prática de reaproveitamento de materiais. Depois de um primeiro encontro em 15 de agosto, na Casa Dourada, os dez negócios selecionados transformaram em matéria-prima uma bandeira de 12 por 6 metros usada em uma ação pelo fim da escala 6x1, realizada este ano no Mangueirão durante um jogo do Clube do Remo. A proposta do workshop, realizado em parceria com o Instituto Psica e o Ateliê Cabrochas, é tratar costureiras, designers, artistas e donas de brechó como agentes de transição climática, com a chance de apresentar seus trabalhos em desfile e exposição públicos e de disputar um aporte de capital semente ao final do percurso.
A oficina de reaproveitamento foi conduzida pelo Ateliê Cabrochas, parceiro responsável, ao lado da equipe da Palmares Lab, pela formação e mentoria dos dez negócios selecionados.
“Nosso objetivo com essa trilha de Moda e Clima é mostrar, na prática, que nada precisa ser descartado, nem tecido que já foi usado, nem o talento de quem já costura, nem as histórias das pessoas. Pegar uma bandeira de 12 por 6 metros que foi usada em um projetos pelo fim da escala 6x1 e transformar em roupa ensina essas dez participantes que criatividade e consciência climática podem andar juntas desde o primeiro corte. É esse tipo de costura que o Cabrochas faz há dez anos e é isso que queremos deixar em cada uma delas: moda como ferramenta de transformação, não só de sobrevivência.”, afirma Gabrielly Dantas, co-fundadora do Ateliê.
A trilha de formação segue a metodologia Sumaúma, desenvolvida pela vice-diretora da Palmares Lab, Kimberly Silva, especificamente para os projetos do Palmares HUB. Batizada em homenagem à árvore mítica da Amazônia, a metodologia aplica às fases de crescimento da sumaúma - da semente até a copa que sustenta todo um ecossistema ao redor dela - à criação de negócios sociais que impactam positivamente seus territórios.
Segundo a própria Kimberly, “a sumaúma não cresce sozinha, ela sustenta pássaros, insetos, outras plantas, um ecossistema inteiro ao seu redor. É essa lógica que a metodologia Sumaúma leva para dentro do Hub. Um negócio também passa por fases de crescimento e o que a gente quer não é só que esses dez negócios cresçam, é que cresçam gerando impacto positivo para seus territórios e para toda economia local. É esse tipo de negócio que queremos plantar em Belém.”
Do lixo à reutilização
A moda é um dos setores mais informais e menos reconhecidos da economia criativa brasileira, e concentra trabalho historicamente invisibilizado de mulheres, pessoas negras e periféricas, o mesmo perfil que sustenta, sem proteção equivalente, boa parte da chamada economia verde do país. Em escala pequena, o Workshop Moda & Clima testa um modelo que a Palmares Lab quer replicar em outros territórios do Norte e do Nordeste: transformar economia informal em economia verde reconhecida, com renda e visibilidade para quem já sustenta essa cadeia na prática.
A aposta levanta uma pergunta incômoda sobre o que ficou, de fato, em Belém depois da COP30, realizada na cidade entre 10 e 21 de novembro de 2025. Passados menos de nove meses, a conferência deixou obras de mobilidade e saneamento, textos internacionais inéditos sobre povos indígenas e afrodescendentes e uma cidade mais visível no mundo, mas deixou em aberto o que interessa a quem vive de trabalho informal; se esse investimento e essa visibilidade vão se converter em renda, formalização e oportunidade para quem sustenta a economia local no dia a dia, muito depois de as delegações internacionais irem embora.
Para a Palmares Lab, organização que atua no Norte e Nordeste do Brasil e que já se prepara para a COP31, marcada para 9 a 20 de novembro de 2026 em Antália, na Turquia, essa é justamente a pergunta que o Workshop Moda & Clima tenta responder na prática: transformar o legado da COP30 em economia real para costureiras, designers e donas de brechó de Belém, e não apenas em infraestrutura e diplomacia.
“A ideia é transformar algo que iria para o lixo em uma peça de moda. Não é só reaproveitamento de material, estamos na prática lembrando que a luta por trabalho digno, por menos lixo e a luta por justiça climática são a mesma luta. É esse tipo de economia real, construída nos territórios, que queremos que seja o legado da COP30 em Belém.”, destaca Kimberly Silva.
Depois da oficina de reaproveitamento, os dez negócios selecionados seguem a trilha de formação e mentoria na Casa Dourada até a etapa final, marcada por desfile, exposição pública e anúncio do negócio contemplado com o aporte de capital semente. Jornalistas interessados em acompanhar as próximas etapas, visitar as oficinas ou entrevistar participantes e organizadores podem entrar em contato pelos canais da Palmares Lab.
Sobre o Palmares HUB
O Palmares HUB é a frente da Palmares Lab dedicada a ações territoriais diretas de fortalecimento econômico e comunitário. O Workshop Moda & Clima, em Belém, é sua primeira iniciativa em execução, com a expectativa de expansão do modelo para outros setores e territórios do Norte e do Nordeste.
Sobre o Ateliê Cabrochas
Cabrochas é um projeto que há mais de dez anos constrói moda sustentável a muitas mãos, conectando criação, território e responsabilidade. Autodefinindo-se como ateliê, brechó, acervo, mas também direção criativa, produção de moda, stylling e realização de cursos e oficinas, o projeto é liderado por duas mulheres, Gabrielly Dantas e sua mãe, Edna Dantas, moradoras da Ilha de Itamaracá, em Pernambuco.
Sobre a Palmares Lab
A Palmares Lab é um laboratório de tecnologias sociais, pesquisa, narrativas e políticas públicas com atuação no Norte e no Nordeste do Brasil. Idealizada por Vitória Pinheiro, mulher trans afroindígena do bairro de Zumbi dos Palmares, em Manaus, a organização mobiliza soluções comunitárias, criativas e locais para a crise climática, fortalecendo lideranças e a perspectiva de pessoas pretas, indígenas, quilombolas, LGBTQIA+ e periféricas na construção da justiça climática no país.