Governo Lula mantém decreto que abre a hidrovia do Tapajós para concessão privada.
23 de fev. de 2026

No sábado, 21, indígenas do Baixo Tapajós ocuparam pacificamente as instalações internas da empresa Cagill, em Santarém, após um mês da falta de posicionamento do Presidente Lula e seus ministérios.
Ao todo, 1.200 pessoas de 14 etnias que, desde janeiro, ocupam o terminal portuário da Cargill em Santarém, no oeste do Pará. Em fevereiro de 2026, em frente a uma balsa carregada de soja no meio do Rio Tapajós estavam guerreiros Munduruku, mulheres Borari, lideranças Arapiun pedindo a revogação do Decreto 12.600/2025, assinado pelo presidente Lula em agosto do ano passado, que incluiu a hidrovia do Tapajós no Programa Nacional de Desestatização. Em linguagem burocrática: o governo abriu o caminho para que uma empresa privada administre o principal rio de vida, transporte e alimentação dos povos do Baixo Tapajós.
A pressão funcionou pela metade. No início de fevereiro, o governo suspendeu o processo licitatório para a dragagem do leito do rio. Mas o Decreto 12.600/2025 permanece em vigor. Para os povos do Tapajós, a suspensão da dragagem não é uma vitória completa.
O impasse jurídico reflete o impasse político: um governo que se apresenta como aliado dos povos da floresta enquanto aprofunda o modelo que os ameaça.Não é uma contradição nova. É a mesma tensão que acompanha governos progressistas na América Latina desde os anos 2000: como financiar políticas sociais sem o agronegócio? Como proteger a Amazônia sem desagradar quem a usa como plataforma de exportação? A resposta, na prática, tem sido apoiar lógica mercantil e os povos indígenas seguem pagando a conta.
O exemplo próximo de integração das cosmologias indígenas com o fazer estatal é de Alberto Acosta, economista e político equatoriano. Ele presidiu a Assembleia Constituinte que, em 2008, fez do Equador o primeiro país do mundo a constitucionalizar os Direitos da Natureza. No livro O Bem Viver, ele sistematiza o argumento central: a natureza não é recurso. É sujeito de direitos. Rios, florestas e territórios têm o direito de existir, de se regenerar, de não ser destruídos independentemente de sua utilidade econômica para os humanos.
Aplicado ao Tapajós, o argumento é preciso. O decreto presidencial faz exatamente o que Acosta critica: trata um rio como infraestrutura logística. A dragagem que o governo quis implementar para ampliar a passagem de navios cargueiros não é obra de desenvolvimento é a inscrição do mercado no corpo do rio. E a concessão privada da hidrovia não é modernização: é a mercantilização de um bem que os povos do Baixo Tapajós nunca trataram como mercadoria.
Acosta chama isso de “maldição da abundância”: a armadilha histórica de países ricos em recursos naturais que perpetuam um modelo colonial de exportação primária, gerando riqueza que não fica, e destruição que não vai embora.
Mas Acosta tem uma origem. Bebeu de fontes andinas dos Kichwa, com o conceito de Sumak Kawsay; dos Aymara. Os povos do Tapajós não são andinos. Têm suas próprias cosmologias, suas próprias formas de nomear a relação com o rio, formas que não cabem inteiramente em nenhuma teoria acadêmica, nem mesmo nas mais bem-intencionadas. A pensadora boliviana Silvia Rivera Cusicanqui alertou para o risco do que chamou de “indigenismo sem índios”: conceitos indígenas circulam no mundo intelectual e político, ganham constituições e artigos científicos, enquanto os povos que os originaram continuam sendo atropelados pelos mesmos projetos que essas teorias deveriam impedir.
Os Munduruku não precisaram ler Acosta para saber que o Tapajós não pode ser privatizado. Eles sabem disso de outras formas muito mais antigas, muito mais precisas para o território em que vivem. Quando ocupam os pertences da Cargill, não estão ilustrando uma teoria. Estão defendendo o que é deles.
A teoria serve de ponte para que o mundo não-indígena entenda algo do que está em jogo. Mas a última palavra sobre o significado do Tapajós não pertence a nenhum livro ou Estado. Pertence a quem vive às suas margens.
A ocupação em Santarém não é um protesto ambiental. Não é uma manifestação pelo meio ambiente, categoria que pressupõe uma separação entre humanos e natureza que os povos do Tapajós simplesmente não reconhecem. É uma afirmação de territorialidade e parentesco com as águas. Uma recusa de ser removido, ignorado, consultado apenas no papel.
A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ratificada pelo Brasil, garante o direito à consulta prévia, livre e informada a qualquer projeto que afete povos indígenas. Ela não foi respeitada. O decreto saiu sem consulta. A licitação avançou sem consulta. E agora o governo negocia a suspensão sem consulta, como se o problema fosse a dragagem, e não a lógica que a produziu.
O Rio Tapajós tem 800 quilômetros. Passa por territórios indígenas, comunidades ribeirinhas, cidades que dependem de sua pesca. Não é um ativo a ser precificado. É um sistema vivo, com história, com irmãos e com a capacidade de reagir quando ignorado.
Este texto foi produzido a partir de informações públicas disponíveis até 23 fevereiro de 2026.