Quem vive os impactos da crise climática também produz ciência, defende Mariana de Paula, cofundadora do Instituto Decodifica

A cofundadora e diretora executiva do Instituto Decodifica, organização da sociedade civil de base comunitária que atua com Geração Cidadã de Dados (GCD), comunicação e incidência política, com foco nas realidades das favelas e das periferias, Mariana de Paula, participou da SB64, a 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção do Clima, que aconteceu em junho, em Bonn, na Alemanha. Em entrevista à Epicentro, Mariana de Paula falou sobre o trabalho desenvolvido no Decodifica e sua relação com as propostas de adaptação climática internacionais que incidem no cotidiano das periferias.

A  cofundadora e diretora executiva do Instituto Decodifica, organização da sociedade civil de base comunitária que atua com Geração Cidadã de Dados (GCD), comunicação e incidência política, com foco nas realidades das favelas e das periferias, Mariana de Paula, participou da  SB64, a 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção do Clima, que aconteceu em junho, em Bonn, na Alemanha. 

Em entrevista à Epicentro, Mariana de Paula falou sobre o trabalho desenvolvido no Decodifica e sua relação com as propostas de adaptação climática internacionais que incidem no cotidiano das periferias. 

Epicentro - O Instituto Decodifica foi premiado em Oxford pelo projeto "Retratos das Enchentes" — um mapeamento do impacto de chuvas extremas no Jacarezinho feito por moradores. Esse tipo de dado, produzido de dentro da periferia, chega de alguma forma às mesas de negociação em Bonn ou o que não entra nos sistemas oficiais simplesmente não existe para a política climática global?

Mariana de Paula - Quem dera se chegassem, talvez ficasse mais evidente como essa morosidade das partes e nas negociações tem destruído vidas, ecossistemas, meios de produção e subsistência… Nas negociações climáticas, existe uma dependência muito grande dos dados oficiais, dos sistemas nacionais de informação e das instituições internacionais. Esses dados são importantes, mas muitas vezes não conseguem enxergar o que acontece dentro de uma favela, de uma periferia, de uma comunidade local. O que não entra nos sistemas oficiais tende a não existir para a política pública e, muitas vezes, também não existe para a política climática global, e esse é um grande problema. Quando moradores da Baixada Fluminense no Rio de Janeiro ou de Passarinho em Recife mapeiam o impacto das chuvas extremas, eles estão mostrando que a crise climática não é abstrata. O nosso trabalho tenta disputar esse lugar dos dados e das histórias por trás de cada um deles. Não basta produzir evidências, é preciso fazer com que elas circulem, sejam reconhecidas e influenciem decisões. Estar em Bonn é acompanhar as negociações, lutar por termos e palavras que promovam avanço nesse processo, trocar experiências com outras periferias do Sul Global e entender como elas tem feito a adaptação em seus territórios e comunidades, mas é também dizer que dados e informações produzidos por favelas e periferias não são “relatos locais” menores. Eles são evidências fundamentais para entender a adaptação, as perdas e danos de quem tem sido linha de frente nessa crise e exigir por justiça climática. Então nossa missão é fazer um advocacy para que esses dados sejam considerados na formulação das decisões climáticas. Se os sistemas globais de adaptação querem medir vulnerabilidade, resiliência e perdas reais, eles precisam incorporar os conhecimentos produzidos por quem vive os impactos no cotidiano.

Uma das críticas recorrentes às negociações climáticas é que os dados que embasam decisões vêm de instituições do Norte Global. O que muda quando os dados sobre impacto climático são produzidos por quem vive o impacto?

Muda tudo, porque muda a pergunta, muda a prioridade e muda a interpretação. Quando os dados são produzidos apenas por instituições distantes do território, muitas vezes eles capturam o evento climático em si, mas sem abordar a experiência social do mesmo. Quando quem vive a realidade produz os dados, aparecem dimensões que normalmente ficam invisíveis como a perda de móveis, o impacto na saúde mental, a insegurança alimentar depois da enchente, a sobrecarga das mulheres, a ausência de alerta e a falta de resposta do poder público. Isso faz com que adaptação deixe de ser uma agenda simplesmente técnica e seja também uma agenda de justiça. Os moradores não produzem a  informação e ajudam a definir o que prioritário. Não é só uma questão de representatividade, mas também é uma questão de qualidade da evidência. Dados produzidos por quem vive o impacto ajudam a complementar os sistemas oficiais e evidenciam que a crise climática tem cor, gênero, renda e endereço. 

Aqui no Instituto Decodifica chamamos de Geração Cidadã de Dados. É uma abordagem na qual comunidades não são apenas beneficiárias de políticas públicas, mas também são produtoras de conhecimento, capazes de disputar decisões.

Em Bonn, um dos temas mais travados é o financiamento para Perdas e Danos, um fundo que existe no papel mas tem menos de 1 bilhão de dólares comprometidos. O que o trabalho do Decodifica revela sobre o que perdas e danos significam na prática, e o quanto o fundo criado pela ONU está à altura dessa realidade?

O Acordo de Paris define Perdas e Danos como os impactos das mudanças climáticas que permanecem apesar dos esforços de mitigação e adaptação, abrangendo tanto prejuízos econômicos quanto não econômicos. O que temos desenvolvido no Decodifica mostra que perdas e danos têm nome, endereço e raça.

Nossa pesquisa Retratos das Enchentes, realizada em duas favelas do Rio de Janeiro e duas de Pernambuco, evidencia que essas perdas vão muito além da infraestrutura; as perdas materiais são enormes, com um custo aproximado de R$ 9 milhões acumulado para os 719 domicílios entrevistados. Ainda tem os danos intangíveis, com impactos na saúde física e mental, insegurança alimentar, interrupção dos estudos, dificuldades de mobilidade, acesso precário aos serviços de saúde e, muitas vezes, a perda da sensação de segurança e pertencimento ao próprio território.

Os dados mostram a dimensão desse problema: 59,1% das famílias já perderam móveis, eletrodomésticos ou outros bens, 49% sofreram danos estruturais em suas casas e 25,6% perderam documentos, comprometendo inclusive o acesso a políticas públicas. Ao todo, foram registrados mais de 5.400 itens perdidos. Além disso, 48,5% dos entrevistados relataram problemas de saúde após as enchentes, 32,3% receberam diagnósticos como dengue, doenças de pele e leptospirose, e a pesquisa registrou seis mortes associadas às enchentes. Também identificamos impactos que quase nunca entram nas estatísticas, como ansiedade climática, traumas psicológicos, perda de memórias familiares e o medo permanente de reconstruir a casa para perdê-la novamente na próxima chuva.

Esses impactos ainda são cumulativos. Em territórios marcados por déficits históricos de saneamento, infraestrutura e serviços públicos, uma enchente não representa apenas um desastre pontual, mas aprofunda desigualdades que já existiam. É justamente essa realidade que muitas vezes não aparece nas métricas tradicionais utilizadas para orientar investimentos e definir prioridades nas negociações climáticas.

Por isso, quando olhamos para o Fundo para Perdas e Danos criado no âmbito da ONU, percebemos um descompasso entre a dimensão do problema e a resposta internacional. Menos de 1 bilhão de dólares comprometidos é insuficiente diante dos impactos que comunidades vulnerabilizadas em todo o mundo enfrentam todos os anos. Os dados produzidos pelas próprias comunidades revelam perdas que normalmente permanecem invisíveis nas estatísticas oficiais. Precisamos incorporar esse conhecimento local e reconhecer que quem enfrenta os impactos da crise climática diariamente também deve participar da definição das prioridades e da forma como esses recursos serão distribuídos e utilizados.

Enchentes, calor extremo e falta de saneamento se somam em territórios periféricos de um jeito que os modelos climáticos não capturam bem. Como você descreve esse acúmulo de vulnerabilidades para quem está negociando em Bonn?

A vulnerabilidade climática é resultado de um processo histórico de desigualdade, racismo ambiental e ausência de políticas públicas. As enchentes, os alagamentos, as inundações e os deslizamentos de terra podem acontecer em diferentes lugares, mas seus impactos são muito mais severos onde já existe saneamento precário, moradias inadequadas, infraestrutura insuficiente, dificuldade de acesso à saúde e insegurança alimentar. Quando eu descrevo esse cenário, que lugar vem à sua cabeça? E qual é a cor das pessoas que convivem com essa realidade todos os dias?

O mesmo acontece com o calor extremo, que agrava doenças, aprofunda a insegurança hídrica e energética e afeta de forma desproporcional as populações negras, faveladas e periféricas. Ou seja, territórios historicamente vulnerabilizados e com baixa capacidade de resposta. Isso não é uma característica das periferias, mas consequência de escolhas políticas. Se durante décadas um território recebeu menos investimento, ele terá menos condições de prevenir, responder e se recuperar de um evento extremo.

Os modelos climáticos são fundamentais para projetar riscos, mas nem sempre conseguem mostrar como esses fatores se sobrepõem na vida das pessoas. Em Bonn, nossa estratégia é mostrar, por meio da Geração Cidadã de Dados, que o conhecimento produzido pelas próprias comunidades amplia a compreensão sobre a crise climática. Quando quem vive esses impactos produz evidências, conseguimos enxergar fatores sociais, de risco e de vulnerabilidade que normalmente ficam invisíveis. Passamos a entender que uma enchente também significa perda de renda, impactos na saúde, interrupção de serviços como hospitais, creches, transporte, energia e internet, além de uma vida marcada pelo medo permanente da próxima chuva. Adaptar um território não é apenas construir infraestrutura. É enfrentar as desigualdades que fazem com que um mesmo evento climático tenha impactos completamente diferentes dependendo de onde e de como as pessoas vivem.

O Decodifica faz incidência política, não apenas pesquisa, mas disputa narrativa e espaço de decisão. Estar em Bonn faz parte dessa estratégia? O que você esperava conseguir aqui que não daria para conseguir de onde você vem?

Isso, o Decodifica produz pesquisa para disputar a produção centralizada de conhecimento e fazer disso ferramenta para transformar decisões. Estar em eventos internacionais, como a Conferência de Bonn e a London Climate Action Week faz parte dessa estratégia de trazer novas perspectivas para o debate climático, apresentar evidências produzidas pelos próprios territórios e defender que elas sejam reconhecidas como fundamentais para a construção de políticas e soluções.

Mas eu confesso que sempre saio desses espaços com uma sensação de: "caramba, faz sentido eu estar aqui?" Porque a transformação acontece, de fato, nos territórios. É lá que produzimos dados, fortalecemos lideranças e construímos soluções junto com as comunidades. É lá que produzimos dados, fortalecemos lideranças e as comunidades”. Enquanto eu estava na Conferência de Bonn, parte da equipe do Decodifica estava em Pernambuco, junto com a Comissão Ambiental Jaboatão dos Guararapes (CAJG), realizando o Fórum Popular Retratos das Enchentes nos territórios de Passarinho e Dois Carneiros. Eles apresentavam os resultados da pesquisa “Retratos das Enchentes” construída em parceria com a CAJG. A partir da análise dos dados, de rodas de conversa e grupos de trabalho, discutiam os impactos das enchentes, os desafios enfrentados pelos moradores e caminhos para fortalecer a adaptação climática e a garantia de direitos.

Mas muitas das decisões que influenciam essas realidades - sobre financiamento, adaptação, dados e prioridades - são tomadas em espaços como Bonn. Se não estivermos presentes nesses debates, corremos o risco de assistir as políticas climáticas serem construídas sem considerar as experiências, os dados e as soluções produzidas por quem convive com a crise climática todos os anos. E nós não queremos assistir, nós queremos participar! Queremos mostrar que dados produzidos por comunidades têm qualidade, legitimidade e capacidade de contribuir para a agenda climática global. E, ao mesmo tempo, queremos aproximar os processos internacionais da realidade dos territórios, para que o financiamento, os indicadores e as políticas climáticas reflitam melhor quem está na linha de frente da crise.

Você opera com a ideia de que "CEP não define futuro". Mas nas negociações climáticas, o CEP — ou o equivalente global dele, o país de origem — ainda define muito do que você consegue ou não consegue colocar na mesa?

Infelizmente ainda define. Assim como dentro das cidades existem desigualdades entre bairros, no cenário internacional também existem assimetrias entre países, instituições e organizações. Nem todo mundo têm o mesmo acesso aos espaços de decisão, aos recursos ou à capacidade de influenciar a agenda.

Quando dizemos que "CEP não define futuro", afirmamos que o lugar onde uma pessoa nasce ou vive não deveria determinar sua possibilidade de viver com qualidade e dignidade, planejar o próprio futuro ou construir seus sonhos.

Ocupar espaços como Bonn também é uma forma de desafiar essa lógica. Quando levamos evidências produzidas por moradores de favelas e periferias para uma negociação internacional, mostramos que conhecimento não é produzido apenas em universidades, centros de pesquisa ou instituições do Norte Global. Quando a experiência de quem vive os impactos da crise climática é sistematizada por metodologias como a Geração Cidadã de Dados, ela também produz ciência, produz evidências e também deve orientar as decisões sobre adaptação, financiamento e justiça climática.

No fundo, o nosso trabalho é justamente reduzir essa distância entre quem sofre de forma mais intensa os impactos da crise climática, mas dispõe de menos recursos para enfrentá-la, e quem decide como o mundo vai responder a ela. Justiça climática também significa democratizar quem produz conhecimento e quem participa das decisões.

  • Mariana de Paula é cofundadora e diretora executiva do Instituto Decodifica, organização da sociedade civil de base comunitária que atua com Geração Cidadã de Dados (GCD), comunicação e incidência política, com foco nas realidades das favelas e das periferias. Engenheira de Produção pela UNIRIO, com especializações em gestão, projetos e inteligência organizacional, dedica sua trajetória ao fortalecimento de comunidades periféricas por meio da Geração Cidadã de Dados. É cofundadora da coalizão O Clima é de Mudança, fellow da BMW Foundation e da Columbia Women’s Leadership Network (2024), além de conselheira da Cidade do Rio de Janeiro, da organização CTRL+Z e integrante do Comitê de Equidade Racial da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro. Atua conectando as vozes das favelas e periferias aos espaços de decisão nacionais e globais.