Reindustrialização verde no Brasil: o que é, o que promete e o que ainda falta
15 de abr. de 2026
A questão climática entrou definitivamente na agenda industrial brasileira, com a concretização da COP30 na Amazônia e sendo ainda tema para as eleições de 2026. Mas decisões recentes do governo Lula revelam contradições: a abertura de licitações para exploração petrolífera na foz do Amazonas e a pavimentação de trecho da BR-319, que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), apontam em direção oposta à valorização do debate climático. O que significa, então, na prática, uma industrialização verde no Brasil? E verde para quem?

Foto: Ecycle
O Brasil vive um momento raro. A crise climática, que por décadas foi tratada como pauta ambiental separada da economia, passou a integrar a agenda industrial do país. Desde o lançamento do projeto de neoindustrialização pelo governo federal, a promessa é que essa nova fase da indústria brasileira seja também verde.
Antes de responder, vale entender o que está sendo chamado de verde porque nem todo mundo está falando da mesma coisa. Na literatura acadêmica internacional, a definição da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO) é ampla: indústria verde é aquela que promove padrões sustentáveis de produção e consumo, com eficiência energética, baixa emissão de carbono, baixo desperdício e responsabilidade ao longo de todo o ciclo de vida dos produtos. Isso inclui tanto tornar as indústrias existentes mais limpas quanto criar novos setores que ofereçam bens e serviços ambientais.
Só que, quando pesquisadores do Climate Tracker América Latina foram a campo entrevistar especialistas, representantes do governo e lideranças sindicais brasileiras, encontraram algo diferente. Na prática, o conceito foi sendo estreitado. “Industrialização verde é descarbonizar o PIB”, resume Rosana dos Santos, do Instituto E+ Transição Energética. Para Elbia Gannoum, da ABEEOLICA (Associação Brasileira de Energia Eólica), é “ajustar a capacidade produtiva de uma nação a uma economia de baixo carbono". A simplificação não é necessariamente errada — o Brasil precisa urgentemente reduzir emissões de gases de efeito estufa em todos os setores. Mas há um risco em reduzir o debate a esse único eixo: questões como justiça socioambiental, condições de trabalho e desigualdade regional ficam para segundo plano ou desaparecem completamente da conversa.
Parte da empolgação em torno da industrialização verde no Brasil tem base concreta. O país possui vantagens competitivas que poucos outros têm. Mais de 47% da matriz energética brasileira já vem de fontes renováveis — número quase três vezes e meia superior à média mundial (14%). Na geração de eletricidade, o índice chega a quase 88% de origem renovável. Além disso, o Brasil detém a maior biodiversidade do planeta e tem capacidade instalada para a produção de biocombustíveis que poucos países conseguem replicar: produz etanol desde os anos 1970 e possui infraestrutura, clima e áreas agricultáveis que o colocam em posição singular para a bioeconomia.
No plano regulatório, o país criou o Comitê Técnico da Indústria de Baixo Carbono (Decreto 11.547/2023), avança na construção da Taxonomia Sustentável Brasileira e está desenvolvendo o Plano de Transformação Ecológica, que estrutura a agenda em seis eixos: finanças sustentáveis, adensamento tecnológico, bioeconomia, transição energética, economia circular e infraestrutura climática.
Mas aqui entra o dado mais revelador e mais incômodo sobre a industrialização verde no Brasil. Segundo levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos - DIEESE e da Central Única dos Trabalhadores - CUT (2025), 73,7% dos trabalhadores brasileiros em ocupações verdes atuam na informalidade, quase o dobro da média nacional. Mesmo entre os empregos verdes formalizados, quase metade não possui vínculo empregatício estável, e a renda média fica abaixo da média do país.
Há também uma concentração geográfica expressiva: 55% dos empregos e ocupações verdes estão na Região Sudeste. O Norte e o Nordeste, que reúnem vastos recursos naturais, potencial solar entre os maiores do mundo e uma força de trabalho que já realiza atividades ambientalmente essenciais como catação de recicláveis, pesca artesanal, agroecologia e gestão comunitária de ecossistemas, aparecem quase invisíveis nas estatísticas oficiais de emprego verde.
O motivo não é falta de trabalho sustentável nessas regiões, mas o fato de esse trabalho ser predominantemente informal. Em estados como Maranhão, Pará e Bahia, mais de 50% da força de trabalho está fora do mercado formal. Como as métricas de “emprego verde” capturam apenas o setor formal, as regiões que mais dependem e mais contribuem para o equilíbrio ambiental do país ficam de fora da contagem e, consequentemente, fora das políticas.
O Data Brief da PalmaresLab (2026) calcula o impacto potencial de reverter essa equação: um aumento de 10% na densidade de empregos verdes no Norte e Nordeste estaria associado a um crescimento de 0,35% no PIB nacional. Os setores verdes têm multiplicadores de emprego significativos cada emprego direto gera de 1,5 a 3 empregos indiretos, o que torna esse movimento economicamente racional, além de socialmente necessário.
Catadores de materiais recicláveis, pequenos agricultores, pescadores artesanais, comunidades indígenas, todos já desempenham funções ambientais essenciais. Integrá-los às políticas de industrialização verde não é caridade: é eficiência. É reconhecer que o trabalho verde já existe e que o desafio é transformá-lo em trabalho decente.
O Brasil tem uma janela real de oportunidade. Tem recursos, tem tecnologia em desenvolvimento, tem marcos legais sendo construídos e tem uma urgência climática que não admite procrastinação. Mas a industrialização verde que o país precisa não pode ser apenas a exportação de commodities com outro nome, nem um crescimento que reproduza as mesmas desigualdades regionais e de gênero de sempre.
A pergunta “verde para quem?” não é retórica. É a mais importante a ser respondida.
Leia o Data Brief completo. Disponível em: https://drive.google.com/file/d/12Qj2zePtQURMttiCVhr7fcKuU-kXkqyr/view
Fontes: Data Brief "Potencial da reindustrialização verde e circular para a geração de trabalho digno e transformação socioeconômica no Norte e Nordeste do Brasil" (PalmaresLab, 2026) e Relatório de pesquisa "Industrialização Verde no Brasil" (Climate Tracker América Latina / Open Society Foundations, 2023)
Texto Elaborado por: Bianca Gonzaga