“Observar as estruturas e absorver os elementos essenciais das trilhas climáticas é uma experiência singular”, destaca Kimberly Silva sobre participação na SB64
A vice-presidente e coordenadora de projetos da Palmares Lab, Kimberly Silva, esteve em Bonn representando a organização na SB64, a 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção do Clima, em Bonn, na Alemanha, evento que acontece junto às negociações climáticas globais.

A vice-presidente e coordenadora de projetos da Palmares Lab, Kimberly Silva, esteve em Bonn representando a organização na SB64, a 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários da Convenção do Clima, em Bonn, na Alemanha, evento que acontece junto às negociações climáticas globais.
A Conferência de Mudanças Climáticas de Bonn, na Alemanha, que neste ano aconteceu de 08 a 18 de junho, é frequentemente descrita como o motor silencioso das negociações globais. Embora não tenha o brilho midiático das COPs (Conferências das Partes) nem reúna tantos chefes de Estado, a sessão dos Órgãos Subsidiários (SB) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) é onde o trabalho técnico pesado acontece. É em Bonn que os países testam posições, disputam termos técnicos e tentam transformar as promessas políticas das COPs em caminhos concretos para a implementação.
Em conversa com a Epicentro, Kimberly Silva contou como foi a sua experiência na SB64 e comentou como as pautas climáticas das periferias do Sul Global são debatidas na conferência.
Epicentro - Você chegou à SB64 pela primeira vez. O que te surpreendeu — para o bem e para o mal?
Kimberly Silva - Quando cheguei a SB64, pela primeira vez, não cheguei só a um evento. Entrei pela primeira vez e pela porta da frente em uma estrutura oficial das Nações Unidas. Acessar esse espaço só foi possível pela construção de um imaginário de que podemos e devemos lutar pela ocupação desses espaços com nosso corpo. Não me surpreendeu a multiculturalidade e diversidade étnica das pessoas na conferência, mas o baixo volume de sociedade civil me chamou atenção. Nesse espaço não adianta cairmos no conto de que sozinhos realizamos o trabalho de representação, essa é uma ilusão plantada por estruturas coloniais, tecnologia utilizada para definir cotas de quantas pessoas de “cada território” pode estar em um espaço onde se decide futuro. Todas nós deveríamos estar aqui. Se você está lendo esse texto, saiba que você fez falta nessa conferência, independente de quem você seja.
Tem alguma coisa que você esperava encontrar e não encontrou, ou que não esperava e encontrou?
De alguma forma, também esperei encontrar um ambiente engessado, mas encontrei um organismo em movimento, com vozes em protestos, congregações festivas, reuniões de corredor, intervalos necessários e momentos de tensão, mas que completam o processo burocrático que é assistir os países negociar. Essa composição é o que permite que nós, sociedade civil organizada, defenda os interesses sociais e urgentes do nosso país e demonstre aos negociadores que enquanto eles sentam em duas cadeiras na mesa, há pelo menos 8 cadeiras na fileira de traz com representações de seu país articulada e atenta ao que se coloca em jogo.

A Epicentro Jornalismo cobre clima a partir das periferias. Quando você está dentro das negociações em Bonn, essa realidade aparece de alguma forma — ou é como se existissem dois planetas?
É como se aqui fosse o momento em que nos entendemos o porquê o que acontece, de fato acontece. Não que os causadores do problema sejam os negociadores que aqui estão, pelo contrário, essas pessoas são capazes de defender os interesses de seus países nos textos. O que se coloca nos textos não é como se fosse uma recomendação a ser feita, e sim uma delimitação dos que os países precisam entregar de resultado. Afinal, estamos falando do acordo de Paris. Na prática, o plano de fundo sempre será recurso. Falar de emissões é falar sobre dinheiro, falar sobre conservação é dinheiro, falar sobre relatórios é falar de dinheiro. Então para jogar o jogo, quem precisa solicita e quem tem recurso para pagar, se esquiva. Na teoria, as discussões aqui precisam deslocar atenção aos mais vulneráveis à crise climática, sendo propositalmente deslocada pelos países que mais contribuem para o colapso ambiental. Quando comunicamos a partir das vivências periféricas, falamos sobre os mesmos problemas, as mesmas dificuldades, só que outros nomes. É o efeito em cadeia dessa estrutura colonial de exploração. Nossas periferias ainda sofrem com racismo ambiental, a maioria dos problemas, causados por mega estruturas que chegam explorando e sem questionar a quem vai ferir. A falta de financiamento em políticas locais, que negam dignidade a nossas comunidades, é resultado de um processo em cadeia, que também inicia no mais alto escalão das nossas nações. Correlacionar os dois mundo não é difícil, eles são o mesmo mundo.
A linguagem usada nas negociações — NDCs, mitigação, perdas e danos, mecanismos de financiamento — é deliberadamente inacessível ou é só um efeito colateral da burocracia internacional? Como isso afeta quem mais precisa ser representado nessas conversas?
Não podemos ser levianos e confirmar que esse espaço é acessível, o processo é estritamente técnico, por mais que os posicionamentos sejam sempre políticos. O cotidiano são revisões textuais, cada vírgula, colchete, parênteses e siglas importam. Para o melhor entendimento, podemos contar com a tradução a partir dos momentos de reuniões com as constituintes e com delegações experientes em acompanhar como é o procedimento da ONU. Posso citar momentos em que a acessibilidade das informações chega a linguagem da sociedade civil: Briefings da LACLIMA, reuniões diurnas Constitute de Gênero, presença de coalizões temáticas, como a presença da Fuerza tarefa por adaptacion climática organizada pelo Talanoa, onde a Palmares Lab é uma das organizações da América Latina que compõe, então essa expertise financiada da sociedade civil, qualificada para estar aqui, também é um movimento extremamente relevante a ser perpetuado e reconhecido.
Você está em Bonn como mulher negra, diretora de uma organização que faz comunicação antirracista sobre clima. Esse perfil é comum no espaço das negociações — ou você sente que está representando algo que está ausente?
Respondendo a resposta enquanto mulher negra brasileira, esse perfil não é comum e precisamos enegrecer nossas cadeiras.
Ter pessoas das periferias e de organizações do Sul Global dentro dessas negociações muda alguma coisa concretamente, ou é mais uma questão simbólica?
Esse é o questionamento que está sendo feito cotidiano pelos representantes de países do sul global aqui, tanto pelas partes quanto sociedade civil. Quando os textos não atendem as necessidades do que esses países trazem enquanto prioridades, o questionamento que fica é: por que estamos aqui então? Em adaptação, uma mulher preta representando seu país ergueu sua voz e disse em alto e bom tom que estava chocada pela ausência de alinhamento do texto e das negociações. Isso dá luz ao enunciado da pergunta.
Saindo de Bonn, o que você leva para sua atuação? Tem alguma pauta que você só conseguiria identificar estando aí presencialmente?
Nada substitui estar aqui presencialmente. Observar as estruturas e absorver os elementos essenciais às trilhas climáticas é uma experiência singular que jamais será compatível com outras. Para nossa atuação, levo inúmeros conhecimentos, para compartilhar, cocriar, pressionar e incidir.
Se alguém que nunca ouviu falar de COP, SB ou UNFCCC te perguntar o que você foi fazer na Alemanha, o que você responde?
Fui assistir os países decidirem se vão ou não financiar nosso futuro.