A Copa das Bets: como as apostas esportivas transformaram o Mundial de 2026 em um risco para milhões de brasileiros

As bets estão nos intervalos comerciais, nos programas esportivos, nas redes sociais, nos perfis de influenciadores, nos patrocínios dos clubes e até mesmo nas transmissões dos jogos. Globo, SBT, CazéTV e outras plataformas que cobrem o Mundial exibem diariamente campanhas de empresas do setor, transformando as apostas em um dos elementos mais presentes da experiência futebolística contemporânea.

Por Matheus Carvalho

A Copa do Mundo de futebol sempre foi sinônimo de paixão, rivalidade esportiva e celebração coletiva. Em 2026, porém, um novo protagonista disputa espaço com os craques dentro de campo: as casas de apostas esportivas.

Basta assistir a uma partida para perceber a dimensão desse fenômeno. As bets estão nos intervalos comerciais, nos programas esportivos, nas redes sociais, nos perfis de influenciadores, nos patrocínios dos clubes e até mesmo nas transmissões dos jogos. Globo, SBT, CazéTV e outras plataformas que cobrem o Mundial exibem diariamente campanhas de empresas do setor, transformando as apostas em um dos elementos mais presentes da experiência futebolística contemporânea.

O crescimento é impressionante. Dados do mercado apontam que as casas de apostas se consolidaram como o segundo maior setor anunciante das transmissões da Copa do Mundo de 2026 no Brasil. Levantamentos indicam ainda que os brasileiros realizam cerca de 425 buscas por minuto relacionadas às bets, enquanto pesquisas mostram que aproximadamente 37% da população pretende realizar algum tipo de aposta durante o torneio.

Por trás dos números bilionários, entretanto, cresce uma preocupação igualmente grande: os impactos sociais e de saúde pública provocados pela popularização das apostas online.

As empresas do setor costumam apresentar as apostas como uma forma de entretenimento associada à paixão pelo futebol. Mas, na leitura de especialistas, o que está em jogo vai muito além disso. O que médicos e pesquisadores estão descrevendo é que as plataformas não atuam apenas como diversão, mas como sistemas que exploram mecanismos cerebrais de recompensa, estimulando a repetição constante do comportamento. Em termos diretos, não se trata apenas de “apostar porque gosta”, mas de um processo em que o cérebro passa a ser induzido a buscar continuamente a sensação de ganho e expectativa, mesmo quando isso gera prejuízo financeiro e sofrimento emocional.

É nesse ponto que surge uma distinção central frequentemente apontada por pesquisadores: cultura não é o mesmo que mercado. O bolão da Copa entre amigos, a aposta simbólica em um churrasco, um almoço ou uma brincadeira no bar fazem parte de uma tradição social ligada ao convívio, à convivência e à celebração coletiva do futebol. São práticas ocasionais, leves e contextualizadas, que terminam junto com o jogo e não estruturam a vida financeira ou emocional de quem participa.

Já as bets operam em outra lógica completamente oposta: são plataformas industriais, permanentes e altamente estimulantes, desenhadas para manter o usuário conectado e apostando de forma contínua. Nesse sentido, especialistas alertam que não se trata de cultura popular, mas de um sistema artificial de engajamento que pode levar ao adoecimento, ao endividamento e à perda de controle sobre o próprio comportamento.

É justamente essa diferença que preocupa médicos e especialistas em saúde mental. Diferentemente das loterias tradicionais, que exigiam deslocamento físico e tinham resultados espaçados, os aplicativos de apostas estão disponíveis o tempo todo no celular. Durante uma única partida é possível apostar no vencedor, no número de gols, cartões, escanteios, desempenho individual de jogadores e dezenas de outros eventos.

Essa dinâmica mantém o usuário permanentemente conectado ao jogo e potencializa os mecanismos de dependência. Em termos simples, o que os especialistas explicam é que as plataformas não vendem apenas apostas: elas estimulam continuamente o cérebro a buscar novas recompensas.

Segundo o psiquiatra Lucas Spanemberg, pesquisador do Instituto do Cérebro da PUC-RS, existe um sistema cerebral responsável pelas sensações de prazer e recompensa. Quando fazemos algo prazeroso, como comer uma comida de que gostamos ou estar perto de pessoas queridas, o cérebro libera dopamina, uma substância associada ao bem-estar. O problema é que certos comportamentos aditivos provocam uma descarga muito maior desse neurotransmissor.

"Há certos fatores que entram no circuito de recompensa e pervertem toda essa experiência", explica o especialista. Segundo ele, essa intensidade muito maior de dopamina cria uma sensação artificial de satisfação que faz a pessoa querer repetir a experiência cada vez mais. Em outras palavras, o cérebro passa a buscar a emoção da aposta da mesma forma que procura necessidades básicas ligadas ao prazer e à sobrevivência.

Mas o problema não se limita à sensação de recompensa. Estudos também mostram alterações em áreas do cérebro responsáveis pela tomada de decisões, pelo controle dos impulsos e pela avaliação de riscos. O psiquiatra Vinícius Andrade, da Comissão de Adicções da Associação Brasileira de Psiquiatria, destaca que essas regiões apresentam redução da atividade e da conectividade em pessoas com transtorno do jogo.

Traduzindo para a vida real: enquanto a vontade de apostar fica mais forte, a capacidade de perceber os prejuízos e interromper o comportamento fica mais fraca. É por isso que muitas pessoas continuam apostando mesmo depois de perder dinheiro destinado ao aluguel, às contas da casa ou à alimentação da família.

O endividamento aparece entre os principais efeitos observados no Brasil. Muitas pessoas entram nas plataformas acreditando na promessa de uma renda extra ou na possibilidade de resolver problemas financeiros. Quando as perdas acontecem, surge a falsa sensação de que uma nova aposta poderá recuperar o dinheiro perdido. O comportamento se transforma em um ciclo que frequentemente termina em dívidas, empréstimos, inadimplência e colapso financeiro.

Casos de ansiedade, depressão, isolamento social e rompimentos familiares têm sido cada vez mais associados ao avanço das apostas online. Em situações mais graves, especialistas relatam episódios de ideação suicida motivados pelo desespero diante das perdas acumuladas.

Para Andrade, um dos grandes desafios é que muitos jogadores escondem o problema por muito tempo. "Quando a gente fala de jogo, algo muito comum é o indivíduo mentir e mascarar as perdas ou a quantidade de vezes que aposta", observa. Segundo ele, o comportamento compulsivo é marcado por uma necessidade intensa de continuar jogando. "É como se você estivesse com fome e não pudesse comer."

A vulnerabilidade dos jovens também preocupa. O fácil acesso aos aplicativos, aliado à intensa publicidade feita por influenciadores digitais, celebridades e veículos de comunicação, aproxima adolescentes e jovens adultos de um ambiente para o qual muitos ainda não possuem maturidade emocional ou financeira suficiente. A exposição precoce é considerada um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento da dependência.

É justamente nesse contexto que a Copa do Mundo se transforma em um potencial gatilho para milhares de pessoas que convivem com a ludopatia, nome dado ao vício em jogos de azar.

Durante o Mundial, o tema das apostas deixa de aparecer apenas nos aplicativos especializados e passa a ocupar todos os espaços da vida cotidiana. Comerciais, programas esportivos, transmissões, memes, comentários de influenciadores e conversas entre amigos reforçam constantemente a ideia de que apostar faz parte da experiência de assistir futebol.

A psicóloga Cristiane Vaz de Moraes Pertusi, presidente da Associação Brasileira de Terapia Familiar (ABRATEF), alerta para os riscos dessa exposição permanente. "Há um aumento expressivo da exposição aos jogos, às campanhas publicitárias das casas de apostas e às conversas sobre o tema. Esse ambiente pode reativar o desejo de apostar, especialmente em indivíduos que ainda apresentam vulnerabilidade ao comportamento compulsivo."

A psiquiatra Cíntia Sayd, especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria, ressalta que o problema é potencializado pela própria relação dos brasileiros com o futebol. "O apostador acredita que, por entender de futebol, pode prever o resultado dos jogos, o que é um erro cognitivo clássico da ludopatia." Segundo ela, a sucessão rápida de partidas mantém o sistema cerebral de recompensa constantemente ativado. "O jogo passa a ser visto como normal nestas ocasiões, parte da celebração, o que dificulta a imposição de limites."

Em outras palavras, quanto mais a Copa é associada às apostas, mais difícil se torna separar o espetáculo esportivo da atividade que pode gerar dependência. A publicidade constante cria a sensação de que apostar é algo natural, inevitável ou até necessário para aproveitar a competição plenamente. O risco é que uma atividade apresentada como entretenimento se transforme em uma porta de entrada para o endividamento, o adoecimento mental e a ruptura de vínculos familiares.

O desafio que surge para o Brasil vai além da regulamentação do setor. O debate passa também pela responsabilidade das plataformas digitais, dos veículos de comunicação e das próprias empresas de apostas. Em um cenário onde bilhões de reais são movimentados e a publicidade se torna cada vez mais agressiva, cresce a necessidade de discutir limites, transparência e proteção aos consumidores.

A Copa do Mundo de 2026 evidencia uma transformação profunda no futebol moderno. Se antes o espetáculo era construído apenas dentro das quatro linhas, hoje ele também acontece nas telas dos celulares, nos algoritmos das redes sociais e nos aplicativos de apostas.

Enquanto a bola rola nos gramados dos Estados Unidos, México e Canadá, outra disputa acontece silenciosamente fora deles. De um lado, uma indústria bilionária que investe cada vez mais para transformar torcedores em apostadores. Do outro, milhões de pessoas expostas diariamente a estímulos desenhados para capturar sua atenção, seu tempo e seu dinheiro. A grande questão que fica para além dos resultados da Copa é se o futebol continuará sendo uma celebração coletiva da cultura popular ou se se tornará, cada vez mais, uma vitrine para uma indústria cuja expansão tem produzido endividamento, adoecimento e vulnerabilidade social em larga escala.


Imagens geradas por Gemini/IA