Calor extremo, Super El Niño e a nova realidade da Copa do Mundo
Enquanto torcedores lotam estádios nos Estados Unidos, México e Canadá, cientistas, atletas e organizadores acompanham outro placar, menos visível, mas igualmente decisivo. O avanço das mudanças climáticas, combinado aos efeitos de fenômenos como o Super El Niño, está alterando as condições em que o futebol é jogado e colocando em xeque a realização de grandes eventos esportivos durante o verão do hemisfério norte.

Por Matheus Carvalho
Durante décadas, a Copa do Mundo foi apresentada como uma celebração capaz de unir milhões de pessoas em torno de um único espetáculo. Em 2026, porém, um adversário inesperado dividiu as atenções com os craques dentro de campo: o calor extremo.
Enquanto torcedores lotam estádios nos Estados Unidos, México e Canadá, cientistas, atletas e organizadores acompanham outro placar, menos visível, mas igualmente decisivo. O avanço das mudanças climáticas, combinado aos efeitos de fenômenos como o Super El Niño, está alterando as condições em que o futebol é jogado e colocando em xeque a realização de grandes eventos esportivos durante o verão do hemisfério norte.
O El Niño ocorre quando as águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial apresentam temperaturas acima da média. Quando esse aquecimento ultrapassa 2°C, o fenômeno passa a ser classificado como El Niño. Embora tenha origem no oceano, seus efeitos se espalham por todo o planeta, modificando padrões de chuva, temperatura e circulação atmosférica.
No Brasil, seus impactos são conhecidos. Enquanto a região Sul enfrenta chuvas intensas, enchentes e deslizamentos, o Norte e o Nordeste convivem com secas severas, redução dos níveis dos rios e prejuízos para comunidades que dependem diretamente dos recursos naturais. Na Amazônia, períodos prolongados de estiagem favorecem incêndios florestais, comprometem a navegação e isolam populações inteiras.
Em escala global, o cenário também é preocupante. O Sudeste Asiático e a Austrália enfrentam riscos crescentes de secas prolongadas, enquanto diversas regiões registram ondas de calor cada vez mais frequentes e intensas. Em um planeta mais quente, eventos extremos deixam de ser exceção e passam a fazer parte da nova normalidade.
A Copa do Mundo de 2026 tornou-se uma vitrine dessa realidade.

Segundo levantamento da Climate Central, quatorze dos dezesseis estádios-sede do torneio registram atualmente mais dias de calor extremo do que na década de 1970, quando ocorreu a primeira Copa do Mundo na América do Norte. Os pesquisadores apontam que o planeta está cerca de 0,7°C mais quente do que durante a Copa de 1994, também disputada nos Estados Unidos, e aproximadamente 1,3°C acima dos níveis pré-industriais.
À primeira vista, a diferença parece pequena. Na prática, ela significa um aumento expressivo na frequência e intensidade de ondas de calor capazes de afetar a saúde humana e comprometer atividades ao ar livre.
Dados da World Weather Attribution (WWA), rede internacional de cientistas especializada em eventos extremos, indicam que uma em cada quatro partidas da Copa do Mundo de 2026 apresenta alta probabilidade de ocorrer sob condições de estresse térmico consideradas perigosas. Entre elas estão jogos decisivos, incluindo quartas de final, a disputa do terceiro lugar e até mesmo a final.
Para avaliar esses riscos, os pesquisadores utilizam um indicador chamado Temperatura de Globo Úmido (WBGT), que combina temperatura, umidade, radiação solar e velocidade do vento. Diferentemente da temperatura convencional, esse índice mede de forma mais precisa o impacto real das condições climáticas sobre o corpo humano.
Os resultados são alarmantes. Algumas partidas podem atingir níveis de WBGT acima de 28°C, faixa em que especialistas ligados à associação internacional de jogadores recomendam considerar o adiamento dos jogos devido aos riscos à saúde.

Diante desse cenário, a FIFA ampliou protocolos de proteção. Todas as partidas contam com pausas obrigatórias para hidratação aos 22 minutos de cada tempo. Em diversos estádios, jogadores utilizam toalhas refrescantes, coletes de gelo e outras estratégias para reduzir os efeitos do calor.
Mas essas medidas revelam algo maior: o futebol está sendo forçado a se adaptar a um clima que está mudando rapidamente.
O calor extremo não afeta apenas o bem-estar dos atletas. Ele altera a dinâmica do jogo. Estudos recentes mostram que temperaturas elevadas reduzem a distância percorrida pelos jogadores, diminuem a intensidade dos sprints, aumentam o tempo de recuperação e afetam a capacidade de tomada de decisão.
Em outras palavras, o calor influencia diretamente a tática.
Pressionar o adversário durante noventa minutos, acelerar transições ofensivas ou manter um ritmo intenso torna-se muito mais difícil quando o corpo luta para manter sua temperatura em níveis seguros. O resultado tende a ser um futebol mais lento, mais cauteloso e fisicamente desgastante.
Pesquisas realizadas durante a Copa do Mundo de Clubes de 2025 identificaram partidas disputadas sob níveis extremos de estresse térmico. O estudo registrou atletas percorrendo distâncias menores e apresentando queda de desempenho à medida que as condições climáticas se tornavam mais severas. Não por acaso, cerca de 75% dos atletas entrevistados em pesquisas internacionais afirmam que as mudanças climáticas já afetam seu desempenho esportivo.
Os torcedores também estão expostos.

Embora os jogadores contem com equipes médicas, monitoramento constante e estruturas de apoio, milhões de pessoas passam horas enfrentando filas, zonas de fãs, estacionamentos e deslocamentos sob temperaturas elevadas. Dos dezesseis estádios utilizados na Copa de 2026, apenas três possuem sistemas de climatização.
Isso significa que os maiores riscos muitas vezes acontecem fora do estádio.
Em cidades como Miami, Cidade do México, Houston e Guadalajara, identificadas pela Climate Central como algumas das áreas mais vulneráveis ao calor extremo durante o período do torneio, os desafios vão muito além dos noventa minutos de jogo. A preocupação envolve transporte público, saúde pública, acesso à água e proteção de grupos mais vulneráveis, como crianças, idosos e trabalhadores expostos ao sol.
A discussão também revela algo fundamental: o calor é apenas uma das faces da crise climática.
Os mesmos processos que aumentam as temperaturas também intensificam secas, enchentes, incêndios florestais e tempestades em diferentes partes do planeta. A mesma crise que interrompe partidas de futebol é responsável por perdas agrícolas, insegurança alimentar, deslocamento de comunidades e prejuízos econômicos bilionários.
Por trás desse cenário está um fator amplamente identificado pela ciência: a queima contínua de carvão, petróleo e gás, que libera grandes quantidades de gases de efeito estufa na atmosfera e acelera o aquecimento global.
A Copa do Mundo de 2026 talvez seja lembrada não apenas pelos gols, pelas seleções campeãs ou pelos momentos históricos dentro de campo. Ela poderá entrar para a história como o torneio que tornou impossível ignorar os impactos das mudanças climáticas sobre o esporte mais popular do planeta.

O futebol já está se adaptando. As pausas para hidratação, os protocolos de calor extremo e as mudanças operacionais mostram isso. Mas a adaptação, sozinha, não será suficiente.
Se até a Copa do Mundo precisa interromper partidas para proteger atletas e torcedores dos efeitos do calor extremo, talvez a verdadeira mensagem deste torneio esteja fora das quatro linhas. Proteger o futuro do futebol passa, inevitavelmente, por proteger o clima do qual ele depende. E essa é uma disputa que não será decidida em um estádio, mas nas escolhas que governos, empresas e sociedades fizerem nas próximas décadas.
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Foto: Molly Darlington / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP
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