Organizações da sociedade civil cobram do Governo Federal plano de prevenção diante da projeção de Super El Niño
A Rede por Adaptação Antirracista e o Observatório do Clima protocolaram, em 21 de maio de 2026, uma carta endereçada ao Governo Federal cobrando transparência e ações preventivas diante da projeção de formação de um Super El Niño no Brasil. O documento é assinado por 77 organizações, entre elas Geledés – Instituto da Mulher Negra, Greenpeace Brasil, Conectas Direitos Humanos e a Coalizão Negra por Direitos.

A mobilização se baseia em projeções climáticas. Segundo a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), agência dos Estados Unidos citada na carta, a probabilidade de formação de um El Niño em 2026 supera 90%, com cerca de 50% de chance de o fenômeno atingir intensidade forte ou muito forte — o cenário popularmente chamado de Super El Niño. A carta sustenta que, se confirmado nessa intensidade, o evento não teria precedente desde o século XIX. Cientistas costumam classificar como Super El Niño os eventos em que a anomalia de temperatura da superfície do Pacífico supera 2°C, registrados em ocasiões raras como 1982-83, 1997-98 e 2015-16.
Na prática, o fenômeno altera o regime de chuvas com efeitos opostos pelo país: tende a intensificar secas no Norte e Nordeste e a concentrar chuvas no Sul, elevando o risco de enchentes e deslizamentos. A carta cita os desastres recentes no Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pernambuco, Paraíba, Amazonas e Rondônia como exemplos do que pode se repetir.
O documento argumenta que os desastres climáticos não são acidentes naturais, mas resultado do que as organizações chamam de racismo ambiental — a tese de que periferias, territórios quilombolas, indígenas e comunidades tradicionais são os primeiros a sofrer os impactos e os últimos a receber assistência. Segundo a carta, obras emergenciais em episódios anteriores priorizaram aeroportos e regiões centrais, enquanto áreas de risco ocupadas por populações negras e pobres seguiram desassistidas.
A carta apresenta pedidos concretos a quatro órgãos. À Casa Civil, solicita reunião para entender como está sendo coordenada, em nível federal, a articulação com estados e municípios e a comunicação de risco às populações mais expostas. Ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, pede esclarecimentos sobre o orçamento de prevenção e a integração dos Núcleos Comunitários de Defesa Civil. Ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, questiona como a perspectiva de justiça climática está sendo incorporada aos planos de adaptação. Ao Ministério das Cidades, demanda o fortalecimento e financiamento de planos comunitários de gestão de riscos e informações sobre o uso do programa Minha Casa, Minha Vida na realocação digna de famílias.
Entre as diretrizes defendidas, as organizações pedem priorização territorial com recorte de raça e gênero, dados desagregados sobre as populações mais atingidas, fim das remoções forçadas sem participação comunitária e reconhecimento institucional das organizações de base — muitas lideradas por mulheres negras, indígenas e quilombolas — como executoras legítimas de ações de adaptação.
O Governo Federal não havia respondido à carta até o fechamento desta matéria.
Leia a carta na íntegra clicando aqui.
Foto: Matheus Bruxel | Agência RBS