Palmares Lab lança Hub Itinerante e inaugura um novo marco na construção de um ecossistema tecnológico periférico no Norte e Nordeste do Brasil

29 de nov. de 2025

A Palmares Lab apresentou o hub como a síntese de anos de construção de tecnologias sociais e metodologias comunitárias. São ferramentas criadas “a partir dos nossos, para os nossos”, enraizadas em territórios que já operam há décadas como laboratórios informais , hackeando sistemas e inventando soluções onde o Estado e as grandes corporações historicamente não chegam. O Hub Itinerante surge para organizar, fortalecer e ampliar esse ecossistema.

Por Matheus Rodrigues

No pavilhão da Open Society, na Zona Azul da COP30, a Palmares Lab apresentou sua estratégia para o Hub Itinerante de Inovação Periférica , uma iniciativa que simboliza não apenas um projeto, mas uma mudança estrutural na forma como a inovação é imaginada, cultivada e distribuída no país.

O lançamento marca a consolidação de um movimento que a Palmares Lab vem desenhando há anos: a criação de um espaço tecnológico periférico, construído a partir dos saberes, lutas, sonhos e soluções do Norte e Nordeste. Trata-se de um gesto político e tecnológico, que reivindica o direito dessas regiões de não apenas participar do debate global, mas de liderar o processo de inovação a partir de suas próprias realidades.

Um ecossistema que nasce das periferias para atravessar o país

A Palmares Lab apresentou o hub como a síntese de anos de construção de tecnologias sociais e metodologias comunitárias. São ferramentas criadas “a partir dos nossos, para os nossos”, enraizadas em territórios que já operam há décadas como laboratórios informais , hackeando sistemas e inventando soluções onde o Estado e as grandes corporações historicamente não chegam.

O Hub Itinerante surge para organizar, fortalecer e ampliar esse ecossistema. Não é apenas um equipamento: é uma estratégia de ocupação. Ele irá circular entre Manaus, Belém e Natal, instalando laboratórios temporários e permanentes, formando pessoas para desenvolver suas próprias tecnologias, criando infraestrutura, conectando coletivos e consolidando bases técnicas que permanecem depois da COP30.

Tecnologia periférica como afirmação política

O hub se ancora em uma premissa: as periferias do Norte e Nordeste sempre produziram tecnologia. Elas só não foram reconhecidas como tal.

Ao apostar em um laboratório que nasce na Amazônia , uma cidade-floresta, nas palavras da organização , a Palmares Lab afirma que a tecnologia não é privilégio de polos industrializados, mas uma prática cotidiana de quem transforma realidade com poucos recursos e muita criatividade.

Essa construção se fundamenta em uma lógica afrofuturista, que não separa a ancestralidade do futuro. Nas palavras da equipe: “essa proposta de hub é uma forma de buscar nossa ancestralidade e fazer política de inovação entre nós”. O futuro não é importado, ele é reconstruído a partir das memórias e das existencias de quem sempre foi excluído das estruturas formais de inovação digital.

Financiamento, autonomia e o direito de criar estruturas duradouras

Durante o lançamento, a Palmares reforçou que editais e filantropia são parte importante para viabilizar a circulação do hub, mas não podem ser confundidos com o objetivo final. “Editais são apenas uma camada”, afirmou a equipe.

O propósito é criar organismos vivos , organizações e projetos capazes de se sustentar, evoluir e multiplicar o pouco que já possuem. O hub não é dependente de ações pontuais de financiamento: ele é uma ponte para que novas políticas públicas sejam acessadas, para que por exemplo a  Lei Rouanet seja explorada enquanto ferramenta de cultura tecnológica e para que novas formas de sustentabilidade financeira cresçam no Norte e Nordeste.

Infraestrutura como disputa de futuro

O lançamento deixou claro que construir um hub periférico no Norte e Nordeste é disputar posição com os grandes centros de inovação. E não se trata de reproduzir modelos existentes, mas de criar novas referências.

“Estamos de frente contra outros centros de inovação tecnológica”, destacou a palmares Lab, não como antagonismo, mas como afirmação de uma expertise que existe, resiste e precisa de reconhecimento institucional.

O Hub Itinerante está ancorado em três pilares estruturantes:

  • Infraestrutura física e digital em territórios invisibilizados;


  • Formação de capacidades técnicas e comunitárias;


  • Confiança — elemento chave para construir redes duradouras entre coletivos da região.


É esse tripé que permitirá consolidar, ao longo dos próximos três a quatro anos, uma rede de inovação periférica, onde cada cidade se torna um nodo de aprendizado e onde projetos podem ser replicados em diferentes territórios.

Transformar ecossistemas, transformar vidas

A criação do hub parte de um vetor potente: as violências institucionais que marcaram historicamente o Norte e o Nordeste. O hub responde a isso com organização, estrutura e ambição.

Ele propõe transformar ecossistemas inteiros , e não apenas fomentar iniciativas individuais. Quando um território ganha laboratório, oportunidade e capacidade técnica, todos ganham. “Quando nós temos algo, outros também têm”, afirmou a equipe.

Permanência além da COP30

Em um momento em que muitos projetos mobilizados para a COP tendem a se dissolver após o evento, a Palmares Lab alerta para a urgência de criar estruturas permanentes. O Hub Itinerante nasce justamente como uma possibilidade de termos um fututo a partir dos nossos olhares.

Ele é o início de um ciclo, não o fim. Um processo que se compromete com o bem viver das comunidades periféricas, conectando recursos, saberes e tecnologias para que essas regiões não esperem por soluções externas , mas produzam as suas próprias.