Pela primeira vez numa sala de negociação na COP30
10 de dez. de 2025
Entrar, pela primeira vez, numa sala de negociação da COP30 foi como atravessar uma fronteira invisível entre o que sempre observei de fora e o coração pulsante onde as decisões internacionais realmente ganham forma. A pauta era a agenda de adaptação climática , um tema urgente para quem vive, como nós do Sul Global, os impactos da crise no cotidiano, antes mesmo que eles virem números ou relatórios. Mas, naquele espaço, quase tudo era discutido em inglês técnico, rápido, cheio de siglas e camadas de diplomacia. A barreira linguística não era apenas sobre palavras: era sobre compreender a arquitetura do plano internacional de adaptação e perceber como, apesar de global, o processo ainda segue distante da realidade de quem mais precisa de respostas.

Por Matheus Carvalho Rodrigues
Entrar, pela primeira vez, numa sala de negociação da COP30 foi como atravessar uma fronteira invisível entre o que sempre observei de fora e o coração pulsante onde as decisões internacionais realmente ganham forma. A pauta era a agenda de adaptação climática , um tema urgente para quem vive, como nós do Sul Global, os impactos da crise no cotidiano, antes mesmo que eles virem números ou relatórios. Mas, naquele espaço, quase tudo era discutido em inglês técnico, rápido, cheio de siglas e camadas de diplomacia. A barreira linguística não era apenas sobre palavras: era sobre compreender a arquitetura do plano internacional de adaptação e perceber como, apesar de global, o processo ainda segue distante da realidade de quem mais precisa de respostas.
A sala, identificada como SBI 12(d) – National Adaptation Plans Informal Consultation, reunia países que estão entre os mais vulneráveis da crise climática. Era uma consulta informal, o que na prática significa uma espécie de roda de conversa estratégica, porém aberta para aqueles e aquelas que tem a credencial da sua delegação para ter momentos de contribuições, para ajustar ideias e inserir no texto final de recomendações que podem moldar o futuro dos Planos Nacionais de Adaptação. O documento base, um texto em inglês distribuído no Brasil e analisado linha a linha, tratava do GGA, o Global Goal on Adaptation, e era assustador perceber o quanto um único tópico pode levar horas para avançar. A sensação é de que, ali dentro, o tempo corre em outra lógica, mais lenta, percebi como cada vírgula tem peso político.
Ao acompanhar as intervenções, sobretudo dos países do Sul Global, com destaque para os representantes da África e sobretudo mulheres, ficou perceptível como essa região imprime força e urgência à agenda de adaptação. São eles que carregam as propostas mais ambiciosas, que mais pressionam pela aceleração da implementação dos Planos Nacionais e que, com razão, exigem mecanismos sólidos de financiamento. É também nesses diálogos que aparece, reiteradamente, a importância de plataformas locais, regionais e internacionais que reúnam informações sobre impactos climáticos, soluções de adaptação e iniciativas de capacitação capazes de fortalecer a expertise técnica e conectar programas regionais e internacionais.
Em certo momento, anotei uma fala que parecia resumir o espírito daquela conversa: a importância do monitoring, evaluation and learning systems — monitoramento, avaliação e aprendizagem — como pilares para garantir que os Planos Nacionais de Adaptação não fiquem apenas na promessa. A negociação mostrava que, para avançar, não basta haver intenção: é preciso criar estruturas de acompanhamento que deem conta da complexidade do que estamos enfrentando.
Ao mesmo tempo, viver essa experiência pela primeira vez foi um exercício intenso de traduzir o que estava acontecendo. Não apenas traduzir a língua, mas traduzir o ritmo, a densidade técnica e política, a forma como cada país tenta costurar seus interesses ao mesmo tempo em que reconhece que todos dividimos o mesmo destino climático. Era como tentar equilibrar, na mente, o universo diplomático e o mundo real do cotidiano fora daquele espaço , o mundo de quem já sente a crise no corpo-território.
Sair dessa sala me deixou uma certeza incômoda e, ao mesmo tempo, importante: apesar de tudo, nossa presença ali importa. Importa porque ampliamos o debate, porque trazemos nuances que não cabem na linguagem engessada das negociações e porque, sobretudo, insistimos que a adaptação climática não pode seguir sem ouvir aqueles que vivem na linha de frente do colapso. A COP30 acontece em território brasileiro, mas isso não garante, por si só, que nossas vozes serão consideradas. Por isso, estar ali , pela primeira vez, mas certamente não pela última, é um ato político, um gesto de reivindicação e um lembrete de que a luta por justiça climática também acontece dentro dessas salas onde os rumos do planeta são escritos, palavra por palavra.